A mulher na sociedade, Diário
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Eu era simpática, até o machismo aparecer…

Tudo começa quando pensamos nós, que no nosso direito o podemos afirmar em voz alta, sem nada contra ninguém, sem juízos de valor, apenas fazendo uso da nossa suposta credibilidade, inocentemente afirmamos: “não, eu não quero ter filhos”, completamente apanhadas de surpresa quando caem o carmo e trindade seguidos desta afirmação, lidamos com isto com estranheza, a grande maioria de nós nem tem reação porque é a primeira vez que estamos a lidar com o machismo, vamos para casa a pensar, a pensar, com a cabeça a latejar e completamente frustradas sem saber porquê, até que percebemos que acabámos de ser vítimas de discriminação. É natural que num primeiro momento não tenhamos resposta, afinal, é uma surpresa que a liberdade seja um dado tão adquirido hoje em dia quando afinal ela nem existe, percebemos nós, pelo menos a liberdade de expressão e pensamento, essa, deixem-se de merdas, não existe, e por isso é que eu gosto tanto de fazer uso dela aqui no blogue. Claro que a partir daí começamos a reflectir em um rol de coisas que nunca imaginávamos ter que ponderar, porque de repente, se as pessoas se acham no direito de aceitar ou não aceitar que não queremos ser mães (o útero é nosso mas elas acham-se nesse direito), então temos que começar a pensar muito bem em que posição vamos ter socialmente.

Aqui temos três opções, ou decidimos baixar a cabeça a todos os analfabetos que decidirem julgar-nos sem ter esse direito, ou vamos bater de frente com eles e calá-los bem caladinhos ou a minha opção desprezá-los, desdenhar e fazer troça em um tom de sátira completamente enervante para qualquer um que não tenha o mínimo de inteligência para lidar com ela, aprendi isso a viver no interior, que ao contrário do que eu esperava tinha pessoas maioritariamente de mentalidade fechada presas a tradições da era do paleolítico, uma vez um colega meu do trabalho decidiu dizer-me que eu não era mulher por não querer filhos, foi aí que eu fiz um pequeno momento de silêncio e ponderei ali bem na frente dele como iria reagir, durou uma fracção de segundos mas na minha cabeça foi muito tempo, e foi aí que com um sorriso usei o sarcasmo, pelo menos neste tema, pela primeira vez e decidi perguntar-lhe se era feliz, já que o sexo para ele servia só para procriar. Um homem de 50 anos ficou vermelho dos pés á cabeça, controlei o meu riso, continuei a comer o meu almoço no refeitório orgulhosa e com a certeza de que ele nunca mais me abordaria sobre aquele assunto.

Eu tenho 33 anos, e demorei anos a fio a aprender a lidar com o machismo porque num mundo ideal ele não existiria, tenho plena consciência que por irónico que pareça o machismo vem maioritariamente de outras mulheres, são elas que fazem a maior pressão, são elas que lançam aquelas piadinhas de sempre, ou mandam aquela boquinha aqui e ali até que um dia sem contar explodimos porque ninguém é de ferro, mas admito que quando vem de um homem enerva-me ainda mais, anatomicamente falando para um homem é normal, colocam a pilinha num buraco e pum, têm um filho, a maioria nem sabe o que significa puerpério ou episiotomia, estão se cagar para isso desculpem-me o termo, nem tão pouco querem ver o parto porque passam mal e no fim dessa onda de medo e cobardia acham que são mais homens só porque o corpo deles produziu espermatozoides, era bom que ensinassem a esses crentes do zé povo que essa merda não dá tesão a mulher nenhuma á face da terra e que ter esperma não faz deles mais machos, anatomicamente são homens, mas nem anatomicamente são mais machos que outros, não há nada na nossa fisiologia que nos torne mais mulheres por ter parido ou mais homens por terem procriado, e já que o zé povo é tão ligado á anatomia e ao primitivo, embrulhem, isso não vos torna mais homens, psicologicamente nem se fala, o zé das couves acha que é macho porque engravidou a maria quando até as moscas procriam, provavelmente é iletrado, burro, desculpem-me, não me controlo, mas também é verdade, é mesmo iletrado, e homem para mim é uma pessoa com ideais, valores e que tenta ser um bom ser humano.

A Ana, a minha ex colega no supermercado, falava muitas vezes dos problemas de saúde que tinha desde que os filhos nasceram, quando eu passava perto começava a sussurrar para eu não ouvir, o que me fazia pensar porque é que alguém que tinha tido uma má experiência com maternidade continuava a querer vender-me maternidade, será que as pessoas não percebem que isso torna-as más pessoas? Nós temos o direito a saber todas as versões da maternidade e com isso decidir se queremos o mesmo para nós ou não. São estas coisas aqui e ali que dão origem a falhas irrecuperáveis na nossa vida, como um casal amigo do Bruno onde ela um dia não aguentou as lágrimas quando decidiu desabafar sobre o facto de estar a ser altamente pressionada para ter filhos, revolta-me, as pessoas não têm a mais pequena noção do quão inconvenientes conseguem ser e deveriam perder mais tempo a meter o nariz na própria vida.

Eu era a pessoa mais simpática do mundo a falar sobre o assunto até que percebi que não podia ser assim pois isso representava aos olhos dos outros uma certa probabilidade de me “moldarem”, então comecei a ser rude, claro, se são homens a ler o meu blogue imaginem o que é ouvir a vida toda as mesmas coisas “ah porque assim não são mulheres”, ou “as mulheres nasceram para ter filhos”, ou “os filhos são a melhor coisa da vida e sem eles não faz sentido” e coisas do género, e imaginem que ninguém vos diz ou prepara para as coisas más, para as dores, para os problemas de saúde, para a mudança para sempre nas nossas vidas, para a nossa falta de prospecção na carreira e falta de liberdade de aí em diante para tudo, viajar, sair, ir ao cinema, jantar fora, todo esse tipo de coisas, imaginem que ninguém vos diz que o corpo nunca mais é o mesmo e que só as celebridades é que sobrevivem intactas a uma gravidez por causa do factor cirurgias e dinheiro??? Imaginem que toda a gente pinta um quadro cor de rosa cheio de borboletas e fadas dos dentes para vos ludibriar e que de repente vocês descobrem que a vida toda, estas pessoas com sorrisinhos hipócritas e falinhas mansas vos tentaram enganar? Imaginem que ninguém vos fala do puerpério, da depressão, da morte no parto, da episiotomia e todas essas coisas e mais mil que fazem com que uma gravidez tenha que ser altamente ponderada? Revoltante não é.

Então agora as pessoas julgam-me pelas costas por tornar-me rude quando sou abordada sobre o meu útero, os meus órgãos sexuais e escolhas altamente íntimas que só a mim dizem respeito, eu não saio por aí a perguntar aos zés das couves qual é o tamanho da pila deles e em quantos buracos já as meteram, então porque é que toda a sociedade acha-se no direito de interferir na intimidade de uma mulher, impondo um monte de rótulos e estigmas que alteram todo o nosso percurso de vida?

O preconceito é real, existe e vai demorar se é que alguma vez vai desaparecer, e eu prefiro revidar a baixar a cabeça por um assunto que só a mim diz respeito.

Rótulos em mim, não, jamais permitirei.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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