A mulher na sociedade, Diário
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Princesa o caraças!

A minha professora de educação moral e religiosa deu-me sem querer uma das primeiras lições que me levou ao feminismo, e lembro-me como se fosse hoje do momento em que ela deixou de sentir qualquer “encantamento” por mim, escrevo encantamento porque era essa a palavra, chamava-me de princesa a toda a hora e dizia que tinha orgulho em mim, baseado em quê não sei, talvez no facto de ser vítima de bullying e permanecer calada, talvez o de encontrar-me sempre com um olhar triste enquanto sorria sempre para as pessoas e tentava disfarçar, aceitava o elogio calada, sorria, eram poucos os elogios que recebia naquele lugar por aquela altura, por isso aceitava o elogio embora não o compreendesse.

Um dia, resolvi defender-me, cansei-me de todos dizerem que me admiravam enquanto todos ignoravam o que acontecia, era como se tivesse que salvaguardar a admiração de todos e permanecer calada até que um dia ou era o bullying ou era eu, e percebi que lutar então não fazia de mim má pessoa mas que defender-me era necessário para sobreviver, então defendi-me, bati com o pé, gritei e com o medo a gelar cada partícula do meu corpo tive que fazer de conta que era muito corajosa e que não tinha medo de nada, foi assim que sobrevivi ao bullying, a aprender a fazer frente aos meus medos, mas foi no momento em que retribui a agressão que deixei de ser admirada aos olhos de muitos, de repente eu já não era uma princesa, já não era a menina bonita e frágil admirada por muitos, quiçá talvez um monstro, tinha perdido a inocência diziam, como se fosse suposto eu ter vergonha por defender a minha vida.

O mal não está no mundo, está nos rótulos que nos colocam que não cabem num mundo real, porque de princesa só gosto do gesto afetuoso, da palavra terna, mas de princesa não tenho nada, nem um pouco se quer. Porque é suposto que seja a sociedade a decidir atribuir-nos o título de mulher ou não, porque para sermos mulheres precisamos de ser princesas, com rosas dentro de frascos de vidro, frágeis, choronas, burras e cobardes, mas claro, incrivelmente bonitas, temos que ficar comovidas ao mínimo ataque porque a força é para os homens dizem eles, nós vivemos no mesmo mundo mas temos que nos curvar perante os outros enquanto outros podem inchar o peito e erguer a cabeça, e são os mesmos rótulos que nos maltratam e estigmatizam enquanto mulheres que punem homens não permitindo que eles sejam humanos, não permitindo que chorem ou magoem-se com palavras, como se não fossemos nós feitos de emoções e ideais…

Toda a sociedade tentou impingir-me uma falácia, a falácia mais antiga da história onde me obrigava a ser incrivelmente frágil mas ao mesmo tempo empurrava-me maternidade goela adentro não me permitindo se quer falar, do quão dura pode ser uma experiência de maternidade e tornado impensável claro, se quer o direito que tenho a recusar ser mãe, porque reconheço que antes disso sou mulher e que não preciso de colocar mais seres humanos no mundo para ser mais mulher, porque eu sou mulher e ponto e os humanos não podem brincar de mãe natureza, porque foi ela que me fez assim ou seja lá quem for, é a minha natureza é o que sou. Mas a história não acaba aqui, tentaram-me fazer acreditar em príncipes encantados, distorceram o facto de o homem ser também o ser humano o que só por acaso deve ser a causa de muitos divórcios porque é injusto estigmatizar-nos como perfeitos quando nenhum de nós é, e é igualmente ridículo acreditar que o homem tem que ser um monte de músculos com um QI infinitamente superior ao de qualquer mulher, é incrível que o que temos entre as pernas de repente dite tanto sobre nós aos olhos dos mais leigos.

E deixei então de ser a princesa quando comecei a questionar a ordem das coisas, comecei a perceber que não precisava de ser bonita aos olhos dos outros e sim aos meus.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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