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Uma sátira sobre a sociedade

O filme e a personagem que mais me marcaram foi o Joker, com o Joaquim Phoenix, sim, eu não vi o Joker com o Heath Ledger, eu sei, icónico, perdi, até porque o actor diz-me qualquer coisa mas confesso que o Joaquim Phoenix como actor, vegan, sabendo que se teve que transformar para o carácter tamanha era a sua importância chamou a minha atenção, antes disso só conhecia o Joker em bandas desenhadas, adorava a caracterização dele, a companheira dele a Harley Quinn, também não sabia a história dela mas o aspecto dela rebelde e ousado chamaram a minha atenção, aquela postura dura com um interior doente faziam lembrar-me alguém, só restava saber o porquê de ela ter ficado assim.

Sou uma pessoa estranha, devem pensar os outros, porque quando vi o filme do Joker achei perfeitamente compreensível o rumo que ele acabou por tomar na vida dele com todos os acontecimentos que o deveram até ele, sim, temos algum controlo sobre as nossas vidas mas existem alturas em que parece que alguém joga xadrez com a nossa personagem e ficamos á mercê da sorte e dos outros, e por isso, ás vezes, olhamos para trás e pensamos no que é que tínhamos na cabeça quando fizemos aquilo, mas na minha vida não tem um momento em que eu não tivesse percebido que tantos acontecimentos menos felizes levaram a que eu fizesse determinadas coisas, em alguns momentos quando somos menos afortunados tomamos decisões de cabeça quente e com o medo a toldar-nos todos os pensamentos, limito-me a pensar que alguns males vêm por bem.

Gostei mais do Joker e do Batman, e depois de ver o filme e já com a ideia na cabeça bem presente de que tinha mesmo que saber a história da Harley Quinn depois daquele filme escrevi um texto enorme onde falava da personagem tão interessante que o Joaquim Phoenix interpretava, foram as personagens com quem mais me identifiquei até hoje, tenho um misto de Harley e Joker, e não me importo, é a minha identidade, foi a isso que a vida me levou, tenho capas e capas em mim que não permitem que quem eu não quero que me veja, me veja, não quero nem permito que pessoas que não me inspiram confiança entrem na minha vida, mas os que me conhecem reviram o meu carácter no da Harley Quinn, um escudo com feridas e fragilidades por dentro que justificavam toda a sua forma de ser, e o Joker, da mesma forma, mas com outras capas, com outras formas de lidar com a dor, tão diferentes e tão iguais dois personagens que só podiam ser atraídos um pelo outro.

A sociedade não aceita desvios disse um crítico, e foi isso que escrevi num texto emocionado que coloquei no facebook nessa noite, quando ainda tinha facebook, rapidamente alguém achou piada ao meu texto e foi comentar “ahahah a Daisy é parecida ao Joker” e eu num encolher de ombros pensei o que haveria de responder a tamanha ignorância, fiz o papel de idiota e coloquei uns smiles igualmente idiotas como resposta. Ironicamente, num texto que falava sobre a hipocrisia da sociedade, haviam pessoas que o liam e praticavam o mesmo papel hipócrita, porque ás vezes é mais fácil fazer de conta que não se entende do que se fala do que confrontar a realidade ainda que apenas de frente para um espelho, e essa reação, a única, porque a maioria gostou e elogiou a minha análise para minha surpresa, fez-me afirmar com mais certezas de que eu sempre fui um Joker a minha vida toda, sempre estive debaixo do escrutínio dos outros, sempre fui humilde, recatada, correta, esforçada e até certa altura sempre acreditei que isso levar-me-ia a algum lado, até que todas as pessoas que me falharam foram construindo uma bomba relógio que ficava mais iminente de explodir a cada pedra, a cada dedo apontado, a cada falta de reconhecimento e injustiça, a cada lágrima que eu não merecia, até que um dia eu decidi esquecer tudo o que eu tinha vivido até aquele dia e tudo o que eu era, e tive que me transformar de uma forma totalmente diferente para sobreviver num mundo afogado em caos, talvez isso tenha tido piada para alguns, para mim não teve, e é de uma ignorância enorme achar que podemo-nos rir das dores dos outros e menosprezá-las quando não as conhecemos, até a vida ser senhora de todos os soberbos e levá-los finalmente ao lugar a que pertencem, um lugar que lhes traga mais humildade e ponderação, não teve piada afastar-me da minha família, dos meus pais, dos meus irmãos, não teve piada enfrentar os meus medos e abandonar a minha zona de conforto para enfrentar as pessoas enquanto tinha ataques de pânico e sentia que ia morrer, porque até aí não me era natural ser mais agressiva, frontal e atacar alguém para me defender, eu era a menina que sorria a toda a gente e acreditava sempre no melhor lado das pessoas, a que se calava sempre que alguém decidia descarregar as suas amarguras em cima de mim porque teve um dia mau ignorando que eu também tinha dias maus e não fazia o mesmo, a que perdoava sempre por mais grave que tivesse sido, a que chorava em silencio e guardava tudo para si, até que isso foi-me consumindo e transformou-me na pessoa que fez com que muitos dos meus “amigos” do passado dissessem que eu era uma pessoa má e vingativa, de repente, as pessoas que me fizeram mal vestiram capas de vítima, porque de repente já não era tão fácil atacar-me porque eu já não era tão frágil, e por isso, na mesma onda de cobardia faziam uso da hipocrisia e faziam o papel de inocentes, eu preferia assim, porque isso significava que nunca mais alguém se aproximaria de mim para me ferir, porque se me achassem louca iriam pensar duas vezes antes de me atacar outra vez, e isso resultou tantas vezes que transformei-me nessa pessoa que muitos dizem que é má mas que só se deixa conhecer por quem realmente ama e confia. O Bruno sabe que não sou assim, e isso é tudo o que importa para mim.

“Put a fucking smile on your face” diz o Joker, e eu lembro-me das vezes em que tive que sorrir e já não queria, lembro-me das redes sociais vestidas em mentiras em embrulhos bonitos com parcerias e influencers que são tudo menos reais, lembro-me disso tudo e penso porque hei de sorrir quando não tenho vontade, mas cedo vem a resposta, porque a sociedade exige, e é assim que nos embrenhamos numa depressão e entramos numa espiral, numa armadilha onde parecemos cair cada vez mais fundo e o fundo não está á vista, a depressão não é aceite, a tristeza não fica bem na fotografia, temos que parecer idiotas a sorrir a toda a hora mesmo sem vontade, porque sorrir não tem mal quando se quer sorrir, não quando temos o mundo a cair-nos ás costas e ainda temos que o fazer, não podemos contar a ninguém que choramos e gritamos para uma almofada, temos que dissimular, ocultar, engolir as lágrimas e isso enlouquece-nos e faz-nos chegar a casa numa ansiedade gigante por sermos humanos e gritar, e chorar até que tudo tenha sido colocado para fora, porque ninguém nos explica que a tristeza é humana e que não faz de nós loucos. Em nenhum momento achei o Joker louco, achei que ele é o fruto perfeito da sociedade, a verdade espelhada numa personagem, a dura verdade, e quem não a percebe prefere chamar o Joker de louco do que tentar compreendê-lo, não é fácil começar a questionar a forma estranha como somos manipulados e obrigados a viver todos os dias, é preciso estofo, coragem, e se vemos a realidade nunca mais podemos viver na mesma hipocrisia, na mesma bolha em que a maioria das pessoas vivem. O Joker questiona as coisas, quase com a ingenuidade de uma criança, e questionar é um ato de profunda humildade, como os adultos da nossa sociedade acreditam que já sabem tudo, não questionam, ou questionam muito pouco, e por isso, por culpa de uns e outros, porque ninguém questiona esta forma estranha de viver, muitos de nós se afogam em antidepressivos porque percebe a dura realidade que é a de enfrentar todo um sistema gigante onde o ser humano não passa de um número, uma coisa, um peão num circo onde alguns privilegiados podem comandar e ser donos de si mesmos, como um esquema de pirâmide desleal onde a sociedade se recusa a admitir que vive, onde só sobrevivem os ricos porque existem pobres que serão podes todas as suas vidas e terão as suas vidas sacrificadas para que uns possam sentar-se num carro com acentos de luxo.

Não nos é admitido estar tristes, como se essa condição não fosse humana, como se a tristeza não fosse resultado dos nossos pensamentos, como se não nos fosse admissível se quer pensar ou refletir sobre o estado das coisas, e é quando descobrimos tudo isto que ficamos descrentes e no limiar de tudo começamos a ser sarcásticos e a decidir que se queremos ser quem somos e minimamente felizes, teremos que viver de costas voltadas para os outros.

A descrença, o fundo do poço, a desilusão, são a cereja no topo do bolo, e quando ficamos prontos para lidar com a realidade das coisas, com o duro estado das coisas, tornamo-nos sarcásticos, porque é o oposto da hipocrisia, porque é uma sátira da mentira em que as pessoas se tornaram sem perceber.

O Joker será sempre aquele filme que eu serei capaz de ver uma e outra vez e não terá sido á toa que até agora todos os atores que o interpretaram, tenham ficado de tal maneira mergulhados na sua essência que tenham passado por um período duro de luto depois de cada filme.

P.S- Ainda bem que algumas pessoas concluiram o mesmo que eu ao ver o filme, aqui vai uma das críticas que li: https://shifter.pt/2019/10/joker-critica-2/?doing_wp_cron=1648842532.2744019031524658203125

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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