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Respeito pela dor e pelas palavras

Quando as pessoas praticam solidariedade ou mostram empatia com um esforço tremendo, isso significa que não sentem de facto empatia e que cedo esses sentimentos de carinho e compreensão pelo próximo se dissipam da mesma forma que passa uma moda ou acabam de ver uma série de tv. A empatia cultiva-se, sim, isso está certo, uns têm-na mais interiorizada outros menos, mas há entre nós aqueles que não têm se quer uma capacidade empática e que por isso é preciso um esforço colossal na hora em que é necessário mostrar alguma empatia, e se ela passa, cultiva-se, pensa-se nela novamente, caso contrário falhamos como seres humanos porque é essa uma das características que mais no humaniza, porque se não queremos pensar ou cultivar empatia então desculpem mas são más pessoas, não são empáticos só porque naquele dia decidiram pensar no assunto, são, numa forma mais subtil de abordar a questão no mínimo dos mínimos preguiçosos, porque a empatia envolve sofrer com a dor dos outros e senti-la ainda que em menor escala, e se o vosso coração não bate e precisam de fazer um esforço para que ele bata, então isso é estranho, é assustador, o meu aperta-se sempre que ouço falar do Andrea Cisternino e fico a saber que á 7 dias que ele não tem comida no abrigo, e penso nisso, sim, recuso-me a não pensar, recuso-me a fazer suposições e perguntas egoístas do género: “como não pensar na guerra”, eu tenho que pensar na guerra porque aquela mulher que vê metade da família morrer e ainda é violada por um soldado podia ser eu, bastava que para isso tivesse nascido noutro tempo e noutro lugar, porque não me parece justo que uns aleguem pseudodepressões só porque pensam na guerra e outros sobrevivam com nervos de aço a uma guerra que de facto acontece e não está só ao alcance de um canal de televisão, não gozem comigo, não me venham dizer que ficaram com uma depressão porque há guerra na Ucrânia e que por isso precisam de beber umas cervejas e empanturrar-se de comida em ambiente de festa, não usem pretextos, só façam isso, mas não digam que é por causa da guerra que isso é sério, é real e acontece enquanto vocês adormecem depois de uma digestão pesada.

Porque para fazermo-nos passar por humanos mais vale estar quietos, e não tem nada de errado ser feliz, querer beber um copo de vinho e viver momentos de prazer, só não desculpem esses momentos com a morte e o sangue dos outros, só não sejam hipócritas, se não são pessoas empáticas ao menos não aleguem que são, ao menos não passem a vida a tentar ficar bem só na fotografia quando mal o flash apaga-se voltam a vidas mesquinhas e sem sentido, não banalizem um momento tão triste com vaidade, só porque querem ouvir da boca dos outros que são boas pessoas, o bem pratica-se de forma altruísta, sem motivos egoístas que acompanhem as nossas ações, o bem pratica-se porque o nosso coração enche-se de luz ao ver um sorriso de esperança no rosto de alguém, porque podemos chorar depois de uma notícia avassaladora mas sabemos do que somos capazes para ajudar, e está tudo bem em chorar.

Eu cresci com o som de tiros e mal fazia ideia do que significavam porque era demasiado criança e ingénua para entender, até que á uns dias atrás o casal de veterinários de que vos falei anteriormente publicou um vídeo do som dos bombardeamentos perto da casa deles, cedo percebi que aquele som era-me familiar e lembrei-me de estar atrás do sofá em casa dos meus pais com a minha mãe á espreita pela janela que ficava mesmo em frente sempre a tentar perceber o que acontecia. Lá fora aconteciam as mais diversas coisas, bem á porta da nossa casa, mulheres queimadas em fogueiras, violações, degolações á catana, um primo nosso foi tirado de casa acusado de traição e morto posteriormente, ninguém pôde fazer nada, isso é guerra, e posso não a ter vivido mas desde que sei que existo vivi as recordações da minha mãe incontáveis vezes, sempre quis saber por mais que doesse porque essa era a nossa história, já o meu pai fechou-se em copas mas se ele foi obrigado a ir para a guerra colonial então certamente enterrou e matou pessoas e isso ultrapassa-nos a todos, nem eu nem a maioria das pessoas imagina como nos sentimos ao tirar uma vida e a enterrá-la pensando que em poucos minutos podemos ser nós, nem podemos tentar, é monstruoso… Foi me privado o direito de conhecer o país onde nasci onde até aos dias de hoje não é seguro ir e vivo com a recordação das coisas bonitas que vivi, certa de que lá era o meu lugar, lá, onde o meu coração bateu pela primeira vez, lá onde alguém decidiu que a terra que pisava era poder, dinheiro e morte, e que por causa da ganância muitos de nós acabaremos privados de algum dia conhecer as nossas origens.

A guerra mudou-me como ser humano porque eu vi por anos da minha vida os traumas pós guerra que o meu pai carregou ás costas, as mazelas que isso criou na vida dele e de todos nós, porque eu vi as lágrimas da minha mãe e como mata aos poucos a saudade de uma vida inteira que se deixou para trás, e a guerra mudou-me outra vez á um mês com a possibilidade avassaladora de poder viver isso eu própria e de os meus pais terem a sombra de uma guerra pela segunda vez, eles não mereciam. Então, por favor, não façam de conta que se preocupam, não banalizem a guerra com estupidez porque isso chateia-me de verdade, a ignorância e a incapacidade das pessoas entenderem a gravidade das coisas é enorme, e se querem preocupar-se hoje e esquecer-se amanhã só porque não apetece pensar mais vale nem abrirem a boca para falar da guerra, mais vale continuar na ignorância plena em vez de tentar o que quer que seja por pura vaidade. Não abram a boca para falar de paz quando estamos á anos em guerra num mundo cheio de racismo, xenofobia, machismo, violência e abuso dos mais fracos e nunca abriram a boca ou se quer fizeram algo para mudar isso, a empatia cultiva-se, cultivem-na em vez de falar parvoíces.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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