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Deuses e humanos

A sociedade precisa de distrações, de ser feliz, de sorrir, de se esquecer do trabalho, isso é ponto assente, claro, mas a forma como o faz diz muito sobre ela, o que fazemos no tempo de lazer diz muito sobre nós, e eu tenho uma certa dificuldade em entender tempos de “lazer” ocupados por futebol e big brother ou novelas, e coloco lazer entre aspas porque para mim isso é sinónimo de tortura medieval.

Não conseguiria passar uma tarde inteira da minha folga a assistir a um jogo de futebol, e não venham com alegações machistas, joguei imenso futebol e pratiquei imenso desporto quando era miúda, não é por não entender o desporto que desculpem-me porque meia dúzia de gatos pingados com a barriga inchada a beber cerveja e a lançar perdigotos e palavrões enquanto assistem um jogo de futebol significa muita coisa menos que sejam grandes desportistas salvo raras excepções. Já repararam? Não praticam desporto nem nada que se pareça mas acham que entendem muito sobre o assunto e é por isso que no meu eu interior resta-me pouco respeito por eles, claro que frente a frente e sou uma pessoa civilizada não tenho outro remédio se não respeitá-los, mas dentro de mim esse é o comportamento que me provoca alguma repulsa e falo aqui em tom intimista convosco sobre o assunto, não consigo respeitar um gordalhufo que já nem se lembra o que é futebol e empaturra-se de torresmos e vinho do porto enquanto queixa-se que o jogador x que está muito mais em forma que ele por sinal, mexe-se mal, e como presumo que quem acusa outra pessoa de fazer algo mal saiba fazê-lo melhor, imagino o gordalhufo a mexer-se com dificuldade no campo de futebol enquanto mastiga uma fatia de pizza e vai deixando pedaços e perdigotos aqui e ali, desculpem, não consigo tirar essa imagem da minha cabeça, sou adepta da teoria de que ” se não fazes melhor cala-te lá se faz favor”. Por comentadores em forma e que têm legitimidade para falar de desporto porque o praticam, por esses já tenho mais algum respeito mas mesmo assim sempre que vejo o Bruno a ver um jogo enquanto dá-lhe uma importância colossal não deixo de me perguntar sempre qual é a utilidade daquela merda.

E depois temos a diva do desporto, aquele que já vi muitos defenderem acima da própria mãe, aquele que me fez como mulher temer pela sociedade em que vivo que não respeita o meu corpo e julga-me por não desejar um homem só porque é rico e tem abdominais, o Bruno também tem abdominais e desculpem-me mas desejo mais o meu marido do que o Cristiano Ronaldo, cai-me o mundo em cima, estou quase a falar de deus embora não sinta que ele o seja sei que ele é um deus para a maioria das pessoas e no entanto tudo o que fez até hoje foi estar em forma, alegadamente violar uma mulher, não se sabe, eu não sei, mas como ele é famoso e joga futebol já não pode ser colocado em causa, e sinto que de certa forma como mulher, o direito a dizer que não é me privado por razões totalmente fúteis, o caso da Kathryn Mayorga mexeu comigo porque apesar da minha ignorância sobre o caso, fico atónita com a tamanha parolice das pessoas, a tamanha insensatez e ignorância de achar que porque vêm alguém a tocar numa bola e a aparecer na tv já conhecem essa pessoa, já sabem como é a personalidade e o carácter dessa pessoa, porque quando se falou deste caso foi um ai jesus, coitado do Cristiano, e todas as pessoas que se atreveram a abrir a boca para falar do que não sabiam, falavam como se tivessem pleno conhecimento de causa, quando não sabiam, obviamente porque não tinham lá estado para saber quem mentia e quem dizia a verdade. Mas é isto, é ao ridículo que chega hoje em dia o endeusamento de uma celebridade, ninguém se lembra dos anos anteriores em que o Ronaldo ia a boates e pagava prostitutas (fotografias desses acontecimentos para quem quiser ver em todo o lado na internet), de repente ele era o sr perfeito, de repente a comunidade feminina com dois dedos de testa que não queria a pila do Ronaldo só porque ele é o sr famosinho percebeu que não tem direitos, percebeu que se por um azar cruzarem-se com a pessoa errada e essa pessoa acreditar que pode tudo jamais se poderia defender perante a lei, porque não deixo de ter a sensação que quando se fala nele nós pessoas e sobretudo mulheres, passamos a não ter direitos e a ser um lixo, e que se livre alguma de nós no meio de uma questão que não faz sentido nenhum respondermos que não, que não sentimos qualquer vontade de foder com ele e tão pouco se quer o achamos atraente, porque se o dissermos somos umas tremendas de umas p*tas e mentirosas que se estão a armar em superiores, literalmente, não temos o direito a decidir a quem abrimos as pernas e se quer afirmá-lo em situações como estas.

Casos desses, de violações cometidas por celebridades em que nós mulheres ainda fomos humilhadas e ridicularizadas não faltam, pesquisem só estes:

Jeffrey Epstein, Roman Polanski, Woody Allen, Bill Cosby….

Há muitos mais casos que por sorte tornaram-se públicos e causaram algum dano ás celebridades acusadas, aliás, uns arranhões e pouco mais que isso, já as vítimas, continuam com os seus traumas para o resto da vida e depois de terem a incrível coragem de tornar público o caso contra um deus na sociedade quando elas são totalmente anónimas, acabam por ser rotuladas como prostitutas, interesseiras e um rol sem fim de nomes menos bonitos, muitas delas menores, muitas delas nem tinham tido relacionamentos anteriormente mas ainda assim são prostitutas, engraçado…

Eu descobri recentemente que sou contra qualquer tipo de “ribalta ou passadeira vermelha”, mas o futebol é o meu calcanhar de Aquiles, aquele motivo de excitação das tascas onde mais perguntas sem resposta se levantam, o futebol é desnecessário, digo, o jogo na tv, as noticias todas, o destaque todo que se dá, a guerra só deixa de ser transmitida na televisão para passar o futebol embora sejam coisas que não têm a MÍNIMA comparação possível, o futebol rouba destaque a notícias realmente importantes, como assaltos, guerra, conflitos, fome, ambiente, os media, a imprensa, falam de futebol diariamente, retratam os resultados dos jogos como se fossem vitalícios para a sobrevivência da humanidade enquanto vivemos tempos tão conturbados e decisivos para o nosso futuro, chega a ser ridículo que dói, entretanto enquanto escrevo o meu texto totalmente anónimo e sem a mínima importância porque não sou o Cristiano Ronaldo, remoem-se me as entranhas porque na televisão ouço de repente o dito cujo fazer um apelo (na minha ignorância pensava que ele ia fazer um apelo ao fim da guerra da Ucrânia, já que tem visibilidade pensei que a iria usar para pelo menos tentar fazer algo de bom) mas não, faz um apelo para as pessoas se concentrarem e darem-lhe força quando quem precisa de força são os heróis ucranianos que estão na linha da frente no combate a decidir os nossos futuros, e ainda chamam este gajo de herói, essa para mim é a gota de água, herói…

A minha vida não mudou só porque ele decidiu enfiar uma bola num buraco, mas a minha vida mudou quando o Bruno decidiu estender-me a mão e ser acima de tudo o meu melhor amigo, e desculpem-me se ofendo os mais susceptíveis mas esse acontecimento para mim teve muito mais importância do que o Ronaldo a enfiar a bola num buraco, mas se vamos falar de heróis vamos mais longe, vamos falar dos que conheci nas últimas semanas que se mantém em Odessa ou Kiev porque não vão abandonar os animais que resgataram por anos, que não perdem tempo a chorar e em meio a tanto sofrimento ainda têm estofo para ajudar os outros, para mim esses são os heróis e desculpem-me mas o Cristiano Ronaldo pode ser muito bom jogador de futebol, mas por amor da santa ele não é um herói, é só um jogador de futebol e o mundo não sofre com a ausência de futebol!

Depois ainda nos dizem que nós as mulheres é que somos as princesas quando certas personagens é que parecem umas virgens ofendidas se decidimos dizer isto, sim, vejam futebol durante dias a fim, não percam um jogo, digam palavrões enquanto emborcam cerveja e dão cabo da saúde, da vossa vida sabem vocês, mas não digam palermices, não propaguem a ideia de que um gajo que dá uns chutes numa bola é um herói porque isso é a distorção do verdadeiro significado da palavra herói e uma vergonha gigante quando falamos de verdadeiros heróis totalmente necessários e decisivos para o nosso futuro, caralho, não me comparem médicos, soldados, veterinários, embaixadores da paz e vítimas com um gajo que dá uns chutes numa bola melhor que os outros, isso é o limite para mim. E depois dizem “ah mas ele tem muito dinheiro e dá muito para a instituição x”, fodasse mas isso é a obrigação do gajo!, ou acham justo que os vossos pais a trabalhar anos a fio não ganhem o que esse gajo ganha num dia?!! Quando ainda por cima o trabalho dos vossos pais é necessário, o dele nem por isso… Mas percebi que quando se fala do Ronaldo não se pode discutir com sensatez estas questões, aparece sempre um gajo histérico que fica super ofendido porque se falou de deus, ainda dizem que as mulheres é que são histéricas, uma vez até perguntei a um se achava que os pais que andavam a limpar ruas a vida toda não mereciam ganhar tão bem como ele e ele disse-me que não, que os pais ganhavam o que mereciam e que o Ronaldo ganhava o que merecia, depois disso percebi que discutir futebol com a maioria dos adeptos é tempo perdido, é a mesma coisa que tentar tirar um doce a uma criança, e o histerismo em redor deste gajo chega a um tal ponto que até aos pais se colocam em descrédito portanto o que se diria de dar o benefício da dúvida a uma mulher que teve a coragem de se expor para falar de uma violação…

Sou contra a cultura das celebridades, o vicio que as pessoas têm de ir ver as fotografias do dia ou as vidas de luxo, a ganância é interminável e causa-me um certo desprezo, e em grande parte, é esta a causa de muitos de nós termos vidas miseráveis porque o ordenado de uns chega a ser tão alto que dava para sustentar a vida inteira cidades inteiras, famílias, garantir-nos um futuro, e depois a sociedade quer nos fazer acreditar que estas pessoas têm mais alguma coisa, que são especiais, quando no fundo todos nós temos um talento ou algo de especial, mas é essa a justificação que a sociedade encontra para poder dar esses ordenados astronómicos, endeusam pessoas que não são deuses e são iguaizinhas a nós sem tirar nem pôr, geralmente pessoas que fazem coisas totalmente inúteis, como jogar futebol, apresentar um programa folclórico ou fazer macacadas no youtube, e depois querem-nos fazer acreditar que todos podemos ter acesso a uma vida melhor, que somos vistos e que também somos especiais quando no fundo apenas o fazem porque precisam de nós para alimentar audiências e redes sociais, porque sem a nossa estupidez em acreditar em semi-deuses do instagram que alimenta essa desigualdade e atira-nos a todos em desgraça eles não existiriam, a ilusão da mulher perfeita, do jogador x como herói e corpo perfeito, atiram-nos em depressão enquanto passamos anos da nossa vida a ser desvalorizados no nosso trabalho, é a sociedade em que vivemos, podemos fazer algo totalmente necessário e útil para a humanidade, mas somos tratados como lixo e por isso é que há médicos a sair de Portugal e Cristianos a construir varandas sem licença a causar a comoção geral da população…. Valores trocados diria eu.

Adoro o anonimato e a privacidade, mas estas pessoas precisam da visibilidade para ir buscar tostões aqui e ali e essa é coisa que mais revolta me causa, é que os ricos não medem a ganância, não estagnam ou não param, querem sempre mais e mais e geralmente somos nós que muitas vezes pagamos entre o fogo cruzado, sou ambiciosa e quero uma vida confortável, mas para mim, um milhão basta enquanto que para outros nada nunca basta nem é suficiente, há sempre uma insatisfação constante e eu coloco as mãos á cabeça e tento perceber qual é a diferença entre ter 10 carros numa garagem quando basta-me apenas um, pergunto-me de que me valem 10 casas espalhadas pelo mundo quando me bastaria apenas uma, e é essa a diferença para mim entre ganância e ambição, ambição é sonhar com um futuro digno, confortável, com direito a saúde, conforto, paz, sossego, saúde e equilíbrio, ganância é o podre que corrói a sociedade, é querer mais e mais na ignorância de que já se tem tudo, só para ter, só para ficar arrumado enquanto do outro lado do mundo crianças morrem com fome sem um pedaço de pão para comer, e é nessa diferença escandalosa de respeito pela vida uns dos outros que decidem então endeusar um gajo que não passa de um mero mortal como todos nós, no limiar de tudo e no fim, todos morremos e transformamo-nos em nada, no fim, é só isso, o poder da vida em trazer-nos de volta a humildade que me dá sossego, no fim somos todos matéria e ninguém deixa de se desvanecer no tempo só por ser rico ou pobre.

Certamente que em vida não podemos falar de igualdade, não enquanto existirem celebridades e deuses num mundo de meros humanos.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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