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Seremos sempre jovens delinquentes

Existe a ideia frequente de que por sermos jovens não temos as ideias no lugar, bem no meu caso e do Bruno jovens bem adultos, jovens independentes que pagam contas á anos sem viver dependentes dos pais, no meu caso, á mais anos ainda e ainda assim ás vezes não deixo de sentir que as pessoas continuam a olhar para nós como se fossemos delinquentes, o que é deveras engraçado, pois durante estes anos eu e o Bruno temos sido muito responsáveis a gerir a nossa vida, e embora não devamos contas da nossa vida a ninguém, chateia-me que ainda tenhamos esse estigma em nós.

Uma das coisas que nos torna mais conscientes e responsáveis ( e com esta já estou preparada para cair-me tudo em cima) é o facto de não termos filhos, há quem pense que fiz uma lavagem cerebral ao Bruno para que ele optasse por não ter filhos (apesar do útero ser meu para não dizer outras coisas) mas tudo o que fiz foi o que todos os casais deviam fazer, sentámo-nos para conversar e pesamos todos os prós e contras, primeiro os contras pesavam mais e mais, isto numa visão realista das coisas sem romantizações, porque não falar das partes más desculpem-me mas é hipócrita, respeito imenso quem quer ter filhos mas eu e o Bruno não recebemos o mesmo respeito pela nossa decisão, e quando se trata de nos impingir ser pais ninguém nos fala das partes más, é tudo muito bonito claro. Mas bem como vos dizia os contras pesaram mais, a falta de liberdade financeira, a de nos mudarmos sempre que quiséssemos, um filho prender-nos-ia ao mesmo emprego mesmo que fosse o emprego que nos fizesse sentir miseráveis para o resto da vida, não nos permitiria viajar tanto, iriamos ter que apertar a corda para além da tremenda irresponsabilidade que concluímos ambos ser colocar uma criança no mundo no estado de caos em que as coisas estão, irresponsabilidade e egoísmo, porque algumas crianças ficam até atingir a maioridade á espera de uma família sem nunca a terem, a adopção é uma opção por mais difícil que pareça, sempre se pode emigrar para outro país para o fazer, acho que é uma opção muito mais altruísta do que colocar outra criança no mundo, embora não esteja nos meus objetivos de todo ter filhos. O engraçado é que quando falamos em ter filhos ninguém nota (ou ninguém quer notar) o quão responsáveis estamos a ser, todos nos apontam o dedo, sobretudo á mulher claro, sobretudo a mim, como sempre o corpo da mulher no seu mais intimo totalmente desrespeitado e exposto, todo o zé povinho em alguma altura da minha vida sentiu-se no direito de fazer piadas com o Bruno sobre o facto de não querermos filhos, as pessoas quase que diziam ao Bruno entrelinhas que ele tinha que se fazer homem, como se um homem se fizesse dessa forma primitiva e absolutamente ridícula, completamente desprovida de intelecto… Quase que quero enfiar dois dedos na garganta ao pensar sobre este assunto, porque de facto tudo o que é primitivo causa-me asia, e eu não vejo mulheres suspirarem e desejarem homens da era do paleolítico com um bastão na mão e todos encurvados, mas existem pessoas assim, que não acompanharam a evolução dos tempos.

Continuando a falar sobre responsabilidade, somos pessoas muito mais conscientes da importância que é preservar o nosso planeta, enquanto as gerações mais antigas envelheceram a olhos vistos não nas rugas mas sobretudo na mentalidade, nós, amadurecemos, o que é muito melhor e mais positivo que envelhecer, que é um termo um tanto errado para se descrever o avançar da idade de alguém, a experiência de vida, a sabedoria são coisas maravilhosas que acompanham a idade, a velhice fecha as pessoas num quadrado e deixa-as muitas vezes inebriadas em pura arrogância e soberba, por isso não tenho medo de um dia ter 70 anos, sei que serei uma pessoa com muito mais conhecimento do que tenho hoje, e infelizmente, a maioria das pessoas não chega a perceber em uma vida inteira que conhecimento é poder, e a idade não é um sinal de velhice, a velhice é podridão, é desleixo, é deixar de ser e de viver, amadurecer, aprender é das melhores dádivas que a vida nos dá, torna-nos mais fortes, mais experientes e resilientes. Eu e o Bruno sabemos que andar a poupar água aqui e ali não nos serve de nada se a nossa alimentação não for saudável, sabemos que um bife de vaca por exemplo custam cerca de 16 MIL LITROS DE ÁGUA, é exatamente o que leram, 16 mil litros, então sabemos que ao comer uma bela feijoada vegan, sem qualquer conteúdo animal, estamos não só a poupar uma vida como a não contribuir para as perigosas secas que ameaçam o nosso planeta e toda a nossa sobrevivência, sem água não existe não só a desnecessária pecuária como a agricultura, não há fruta nem legumes, não há alimento para ninguém, porque tudo provém dos solos, inclusive a comida que os animais mortos na horrível indústria pecuária comem, irónico quando as pessoas podiam comer esses alimentos diretamente em vez de alegar que os animais comem verduras e consecutivamente tornam-se mais saudáveis, coisa que não corresponde á verdade e transforma não só a pecuária num processo monstruoso para capricho humano como um total desperdício e um contribuidor afincado para a fome em todo o mundo. Então sim, eu e o Bruno temos essa consciência ambiental que tantas vezes gerações mais antigas tratam com desprezo e ignorância, sendo que a antiguidade das pessoas serve como desculpa para a falta de humildade e capacidade de aprender.

Eu e o Bruno somos também pessoas mais saudáveis, conscientes da importância do desporto e da saúde, conscientes que a saúde é o pilar de todas as coisas e que por isso ao alimentarmo-nos bem, não só estamos a ser uma boa influência para o círculo em nosso redor, como a cuidar das nossas vidas, é como eu costumo dizer, quando fazemos o bem isso de alguma forma volta para nós, e eu encaro a saúde que tenho como uma recompensa pelo facto de ter decidido ser vegan á mais de 5 anos.

No entanto, apesar de todas estas coisas, apesar de tudo, apesar de nos conseguirmos “safar” numa daquelas que é das gerações mais difíceis para se sobreviver e onde tantas vezes os nossos avós disseram “eles não passaram por uma guerra como nós” (apesar de eu ter crescido sobre o som dos tiros em angola), anos depois já podemos dizer que passámos por uma pandemia que nos debilitou ainda mais e agora infelizmente uma guerra, ou seja, fomos tantas vezes culpados pelo que aconteceu aos nossos avós que agora estou curiosa para ver o que é que eles vão dizer de nós para nos conseguirem continuar a apontar o dedo. No entanto, apesar de eu e o Bruno não sermos jovens que não param de viver ás custas de rsi e a colocar filhos ao mundo continuamos a ouvir críticas para cada passo novo que queremos dar, como se não soubéssemos o que fazemos nunca nestes últimos 5 anos. Inacreditável.

Nós jovens somos os ativistas que mantêm empregos voláteis enquanto lutamos por causas, ganhamos mais 200 euros que á uns anos atrás mas gastamos mais 500 euros em rendas, alimentação, carro, gasolina e saúde, em tempos onde quase não existem empregos de 8 horas e sim de mais e mais, onde trabalhamos por 2 e por 3 num tempo em que a depressão no trabalho quadriplicou e fazemos as vezes dos nossos colegas, chegamos exaustos a casa e ainda temos tempo para construir ideais e ajudar, em tempos onde a competição é lei e somos meros números, onde nos esforçamos diariamente por nos destacarmos e onde de dia para dia tudo se torna mais difícil, ainda somos delinquentes, irresponsáveis, malucos e 30 por uma linha. E sempre o seremos, vivemos numa sociedade envelhecida, onde por mais que façamos existirá sempre este desdém tacanho de uma geração que ainda por cima colhe os frutos dos pais e dos avós.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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