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Des [confiar]

Ás vezes a melhor forma de percebermos se o mundo está de pernas para o ar ( já todos sabemos a resposta a isso) é olharmos para o nosso eu enquanto crianças e pensar em como reagiríamos se lhes contássemos algumas coisas. “Sabias que nem sempre quando as pessoas fazem bem é com boas intenções?” Diria eu hoje, e provavelmente o meu enquanto criança ficava “hm? Não são as pessoas que fazem coisas boas que são as boas?”, e tu num encolher de ombros perguntar-te-ias como se explica a uma criança algo que não tem a mínima explicação mas ainda assim acontece…

As lógicas necessárias para entendermos e sobrevivermos a um mundo onde todos farejam á procura de uma presa são difíceis de entender quando acabamos de chegar a este lugar estranho que se chama mundo, vamos aprendendo com o que vemos e pior, com o que nos acontece. Podemos ler mil manuais diferentes mas não há nada que nos ensine melhor do que a vida, as coisas que acontecem conosco e que ninguém nos contou, nós vivemos.

Hoje em conversa falei sobre as pessoas que já me fizeram tão bem mas que no entanto tempos depois acabaram por cobrar esses “favores”, quando fazemos bem a alguém é porque queremos bem a essa pessoa e porque a amamos, e é isso que algumas pessoas que se apelidam de benfeitoras não entendem, ajudar alguém é um ato de altruísmo, humano, desinteressado, é porque ver essa pessoa bem faz-nos bem, e esse é o único interesse que temos ao fazer com que alguém seja mais feliz, o único que move quem ajuda de verdade e não se aproveita apenas de uma oportunidade para acumular favores aqui e ali, como se devolvesse um artigo numa loja e ficasse á espera de usar um voucher a qualquer momento, como se fossemos coisas.

Com o passar dos anos algumas pessoas cobram-te favores, como se fazer o bem fosse um cálculo que anotássemos em um caderno, um livro de empréstimos, como se fosse algo que na verdade não quisessem fazer mas lhes tivesse dado jeito, e quando as pessoas não nos querem bem, o mais provável é que o seu lado mau um dia se veja, porque, se não aceitamos que um favor seja cobrado então somos os maus da fita, mas habituem-se, porque nas histórias que os outros contam muitas vezes eles são os bons e nós somos os maus, e frequentemente as pessoas acreditam na primeira versão da história sem questionar qual será a versão de quem está no lado oposto.

Sim, o mundo é estranho, nem tudo o que parece é, sobretudo o que nos contam e não vemos á nossa frente, a única forma de não sermos injustos é ser imparciais e dar sempre o benefício da dúvida a ambas as partes, porque na minha vida já fui vista demasiadas vezes como a má da fita quando nunca tinha oportunidade de contar a minha versão dos factos, e por isso, porque não quero ser responsável por fazer alguém sentir-se como eu me senti, acredito em alguém até ter a prova do contrário, é assim que se desarma um mentiroso, com tempo, paciência e sabedoria, o tempo faz com que desvaneçam todas as mentiras, revela quem somos porque nada melhor que a consistência dos anos a passar por nós para que se faça luz na cabeça dos que tantas vezes nos desacreditaram, e mesmo que ninguém oiça a nossa versão, uma cobra devora uma presa e poupa-nos a vida só por enquanto até ficar com fome outra vez, e esse é o mal dos que preferem ouvir quem fala de nós a ouvir a nossa história de nós mesmos, não contam que um dia o mesmo lhes possa acontecer.

Raramente aceito favores de seja quem for, porque quem ama dá carinhos, afetos e faz pequenas surpresas aqui e ali, favores não existem num mundo de valores trocados, a ganância veio substituir tantas coisas boas que tínhamos sem dar um valor monetário a tudo, sem querer atribuir um cifrão a tudo. O altruísmo está em vias de extinção e amar é para poucos, muito poucos, o nosso valor como seres humanos nunca foi tão baixo e o carácter de poucos sobrevive a isso. É este o tamanho da loucura em que vivemos, temos que pensar duas vezes antes de acreditar que alguém nos quer ver bem de facto, aprofundar e pensar o que essa pessoa poderia querer em troca e ponderar se vale mesmo a pena termos um penso rápido sobre um problema para depois tornar-se numa bola de neve que só aumenta com o passar do tempo.

O Amor não se cobra, nunca, em circunstância nenhuma, a não ser que não o seja.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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