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Mexericos

O grande problema, no geral está no facto de as pessoas não reconhecerem a liberdade das outras, de querer por querer que todos sigam o mesmo rumo quando todos temos aspirações diferentes na vida. Uma coisa é criticarmos alguém que passa a vida a infernizar a vida dos outros, outra coisa é de repente termos problemas só porque optámos por caminhos diferentes dos demais.

Há quem diga que magoamos os nossos pais quando escolhemos uma carreira não tão lucrativa por exemplo, mas se não podemos escolher qual a profissão que vamos exercer o resto da nossa vida onde está afinal a nossa liberdade? E não será uma falta frequente de maturidade dos progenitores achar que a vida dos filhos para sempre lhes vai pertencer? Nunca quis ter filhos mas aqui está uma coisa que acho que quase ninguém compreende: pais são meros interlocutores entre o mundo e os filhos, não são donos ou possuidores dos filhos como se de coisas se tratassem, não decidem o destino deles ou que personalidade vão ter, são meros intervenientes, não se tornam donos da vida deles porque a uma certa altura deitaram-se numa cama e fizeram o que todos já sabemos, uma vida pode ser gerada ou criada por qualquer zé das couves, não é preciso um grande QI para se engravidar ou engravidar alguém, mas é preciso algum QI para entender que a vida dos outros aos outros lhes pertence. Se não compreendo o sentimento de posse em relação aos outros sobre os pais, porque posse é diferente de afeto, muito menos compreendo o sentimento de posse por amigos.

Amigos são pessoas com quem é suposto estarmos á vontade, confiar, trocar impressões e ideias sem grandes dramas de preferência, muitas vezes a vida encarrega-se de nos separar, faz parte, as melhores pessoas que conheci acabaram por emigrar, uma amiga minha de infância está em Barcelona, outra em Londres, é a vida, seguimos o que é melhor para nós, mas de á uns tempos para cá que tenho reparado que existe um certo preconceito com quem emigra… Não é esse o assunto da conversa, mas de facto, muitas vezes emigrantes são vistos como pessoas ingratas ao país onde nasceram.

Mas coisas bem diferentes são eu criticar a monstruosidade que tem acontecido agora na Ucrânia e definir culpados, onde existem crimes hediondos todos os dias, onde os dias são inimagináveis para nós, outra coisa é criticar alguém que não conheço porque não tem as mesmas opções de vida que eu. Uma coisa é falar-se de algo que é público e atinge-nos a todos, e claro, é humano fazer análises ao que tem acontecido e tanto nos assusta, outra coisa é falar de pessoas com vidas comuns que se esforçam por ter uma vida digna e criticar as suas opções de vida sem estar na casa delas, sem as conhecer verdadeiramente, isso trata-se já de maledicência e para quem já me conhece é algo que me causa um certo azedume. Quando fala-se em maledicência lembro-me de um episódio em que eu estava em casa e mais uma vez os meus pais decidiram agredir-me, francamente não me lembro do motivo porque as agressões eram quase diárias, eu nunca levantei a mão á minha mãe, nunca, naquele dia sentei-me num canto da marquise de casa e comecei a chorar enquanto escondia o rosto, a minha cabeça latejava e não conseguia mais ouvir os gritos dos meus pais a discutir, é exaustivo viver no seio de uma família disfuncional, quem cresceu nestas condições sabe disso, o cansaço acumula-se, estamos sempre á flor da pele e ás vezes saímos de casa sem destino só para poder desfrutar de algum silêncio e paz, eu chorava enquanto os meus pais discutiam e lembro-me que os meus pais discutiam por causa de mim mas não me lembro do motivo, o que aconteceu foi que a minha mãe a certa altura pegou num dos meus braços e começou a puxar-me e eu no meio de tanto esbracejar e espernear sem querer dei-lhe um pontapé numa das pernas…

No dia a seguir a história que a escola sabia era que eu tinha agredido a minha mãe, e enquanto eu escondia por anos as marcas por baixo de uma camisola de manga comprida em pleno verão, os meus pais aproveitavam a primeira oportunidade para dizer que afinal a menina estudiosa e bem comportada na escola era uma delinquente, eu estava convencida que a escola não iria acreditar naquilo, por essa altura as minhas notas ainda eram exemplares e nunca arranjava conflitos, nunca fui expulsa de uma aula ou faltei ao respeito a um professor, mas, a escola inteira acreditou naquelas histórias e deram mais importância a isso do que ao bullying que sofri durante anos, acho que foi a primeira vez que percebi que quando alguém julga alguém deve estar plenamente ciente do que está a dizer e não espalhar um boato que não sabe se é verdade, ás vezes o que dizem de nós leva-nos ao suicídio enquanto adolescentes, porque transforma-se tudo numa bola de neve gigante e não temos maturidade suficiente para nos protegermos. Felizmente, enquanto adolescente, as vezes em que tentei colocar algum termo á minha vida foram muitas vezes chamadas de atenção que por o serem não deixam de ser motivos de preocupação, porque, como a vida acaba por provar, no inicio são tentativas desesperadas por ter o amor de alguém, no meu caso o dos meus pais, mas com o tempo se essas tentativas são subestimadas e infrutíferas acabaram por transformar-se em vontades reais de nos eclipsarmos do mundo e acabar com todo o sofrimento, sim, é esse o poder de um boato, é como uma bola de neve. E uma tentativa de suicídio que seja uma chamada de atenção não deixa de ser preocupante, afinal é triste que pensemos que tenhamos que chegar ao extremo de infligir alguma dor em nós para que as pessoas que mais amamos se lembrem que nós existimos.

As pessoas não percebem de facto a importância das palavras, por isso é que falam tanto e pensam menos, mal comum da sociedade, é comum vermos um café apinhado de gente e ninguém está em silêncio, todos conversam 100% do tempo, eu e o Bruno tantas vezes caminhamos na praia em completo silêncio, e a meio de uma conversa eu peço para que nos calemos e só possamos ouvir o barulho das ondas, das gaivotas e do mundo, ás vezes o silêncio é um sábio, e ás vezes é preciso ser-se muito nobre para se ficar em silêncio perante certas situações, somos humanos e falhamos, mas isso nunca deveria ser desculpa para não aprendermos com as nossas falhas.

Eu aprendi a moderar as minhas palavras quando pela primeira vez disse ao meu pai que o odiava, eu usei estas palavras, eu não queria dizê-las naquele momento, não queria mesmo, mas fiz um esforço para pronunciá-las porque queria desesperadamente odiar o meu pai por tudo o que ele me fazia, e dizia-o em lágrimas, na esperança que um dia ele se questionasse porque é que a própria filha algum dia tinha pronunciado aquelas palavras, mas em nada resultaram, nos olhos dele não haviam qualquer emoção, nos meus tristeza, porque são estas as palavras seguidas de “tu não és meu pai” que nunca queremos ter que dizer aos nossos pais, mas era assim que eu me sentia naquele momento, e depois magoada por tê-las dito, logo eu que tinha a esperança que elas atingissem de alguma forma o meu pai fui ficar completamente desfeita com a mais pequena possibilidade de isso acontecer.

Então é essa a moral da história, somos humanos, falhos sim, mas a maledicência é um hábito primitivo e que corrói as relações humanas, cria muros em vez de pontes, porque parte de sermos humanos consiste em reconhecer a humanidade dos outros e não de aniquilar os outros em privado em meio a sussurros ao mais pequeno erro, todos temos telhados de vidro, todos somos motivos para falatório em algum lugar e na maioria das vezes nada é verdade, e se há estudos a calcular o tempo que perdemos a dormir e a trabalhar, deveria existir outro que nos explica quanto tempo alguns de nós perdem a falar de vidas alheias, a supor, a julgar, enquanto não refletem sobre as suas próprias vidas e não tentam ser melhores seres humanos.

O engraçado é que o mundo é tão vasto e no entanto existe uma parte da sociedade que não sabe fazer outra coisa se não bisbilhotar a vida dos outros. Falta de criatividade? Provavelmente. De certa forma as minhas escolhas pessoais fizeram com que tivesse que lidar com a crítica muito frequentemente, a maioria das pessoas espera que sejamos meros fantoches e que sigamos os caminhos mais comuns só porque é aquilo que todos fazem, e o engraçado é que eu sou aquela pessoa que nunca prejudicou ninguém ou passou por cima de ninguém, no entanto, não foi isso que poupou a minha vida aos falatórios, ser vegan, bissexual, ter um relacionamento onde a minha mentalidade e a do Bruno são diferentes da maioria dos casais e não querer filhos foram as bombas maiores, as que mais chocaram o outro ainda que eu não tenha pedido a opinião ou o choque, pois cabe-nos reservar esses sentimentos em privado pelo menos quando não temos nada de bom a acrescentar, pelo caminho, vou atirando mais algumas bombas para o ar que surgem naturalmente na minha vida por á muito tempo não basear as minhas decisões com base em padrões sociais ridículos e frequentemente machistas que a sociedade nos tenta impor. Ainda bem que o falatório não me fez ceder á pressão, por esta altura estaria infeliz, com um bebé nos braços e presa a um emprego que me atiraria para uma depressão profunda.

O mexerico, o boato, o falatório só são hábitos comuns de quem tem pouco conhecimento do seu lugar e da humildade que é necessária para saber que se vamos falar de uma nódoa em um pano é preciso que o pano esteja nas nossas mãos.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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