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Inacreditável

Não consigo perceber, a sério, para bem da minha sanidade mental, pelo menos no meu caso só que eu devo ser de facto uma pessoa muito estranha, quando sinto que alguém não gosta de mim ou quando eu por ter as minhas razões não gosto de alguém, sim, porque eu não sou daquelas pessoas que não gosta de alguém sem uma razão, cada pessoa que afastei da minha vida sabe os motivos, sem sombra de dúvidas, por mais que os guarde para si, mas como dizia, quando o sinto, essa necessidade de me proteger afasto-me, simples.

Não há motivos para manter alguém nas nossas vidas se simplesmente não existe a mais pequena amizade de ambas as partes, e ainda que não haja uma inimizade, que me resta mais fazer do que dizer apenas olá e seguir com a minha vida? Se não há tema de conversa, assunto ou coisas em comum porque é que eu hei de fazer conversa com x pessoa só porque é a pessoa importante do sitio x? Vejo-me dos dois lados e acho que a vida já é complicada que chegue para andarmos a fazer fretes, não sou daquele tipo de pessoas que goste de adulação só porque sim mesmo que não seja sincera, mas também não o faço.

Ultimamente tenho andado a fazer uma reformulação na minha vida, aliás, posso vos dizer que isto começou á mais de um ano sem que eu tenha percebido, é a vontade de ter paz e nem tanto de ser feliz, a felicidade é muito relativa, são momentos, mas a paz é um luxo a que poucos se permitem, a reforma que mais me deu “problemas” foi naturalmente a de excluir relações tóxicas que me deixavam profundamente infeliz, pessoas que só convivem bem com “súbditos” e não com outras que as vão tratar de igual para igual, e se existe algo que já aprendi á uns valentes anos é que não se baixa a cabeça para ninguém porque todos somos iguais, com telhados de vidro.

Sempre me senti uma pessoa invisível aos olhos dos outros, se por um lado as mulheres sempre tiveram inveja da minha imagem e isso trouxe-me imensos dissabores ao longo da vida e conflitos completamente infundados, por outro quando era altura de mostrar que eu também era uma pessoa de causas e ideais ninguém queria ouvir, os homens que me desejavam olhavam para o lado para falar de outra coisa qualquer e elas idem, o meu nome sempre veio á tona para falar do meu físico, as pessoas diziam barbaridades, que eu devia fazer dietas loucas para manter a forma, que eu mentia na minha idade porque tenho 33 anos mas sempre aparentei ser mais nova e um rol de barbaridades intermináveis, os homens desejavam-me, olhavam-me, lançavam piropos, mas homens ou mulheres, foram poucas as pessoas cultas, inteligentes e com quem dava gosto ter uma conversa que conheci.

Vivemos tempos loucos, ninguém gosta de filosofia, de ler, de ver as noticias, a maioria das pessoas nem tem ideais para defender, seguem alienadas para rotinas automatizadas, despertador, banho, trabalho, casa, cozinha, filhos, marido, casar, ter filhos, estudar, bla bla bla, e se no meio de um fim de semana enquanto descansamos do trabalho temos o azar de ter alguma esperança e falar sobre o tal ativista que conseguiu fazer com que se fechasse uma fábrica de peles de vison no país x as pessoas entram em completo burnout, semelhante ao que acontece com quem detesta matemática, o problema é que falamos de ideais e é muito grave que nos dias de hoje falar de ideais seja o equivalente a apresentar um problema matemático ás pessoas, gravíssimo, triste, uma das coisas que ás vezes faz com que me queira eclipsar deste planeta. Quase que ter cultura é visto como um hábito dos ricos nas classes médias, quando todos, por maiores que sejam as dificuldades que passemos temos acesso a uma biblioteca municipal, a uma tv com o noticiário juntamente com alguns neurónios para assimilar informação, não sou rica mas não vejo ninguém do meu meio querer comentar uma notícia que passou na televisão indignado com a situação do país, vejo as pessoas da mesma faixa etária que eu mais preocupadas que os nossos pais ou avós, e não percebo a alienação em que as pessoas vão caindo, depois, á uns tempos atrás quando falei de emigração, foram os mais velhos que me caíram em cima “ingrata” diziam eles, quando os mesmos que me acusaram conseguiram ainda pedir um crédito habitação e ficar efetivos nas empresas, quando hoje nós somos escorraçados a cada 18 meses de contrato porque ninguém nos quer efectivar, quando em 2022 os bancos apertam ainda mais o cinto e tornam impossível que um de nós possa pedir um crédito depois dos 30 anos, “preguiçosos” dizem eles, quando somos sujeitos a “estágios” pelo iefp a receber 250 euros por mês que não passam de fachadas para que as empresas nos possam escravizar, quando fazemos horas extras que vão para o banco de horas e ainda temos que conciliar 2 trabalhos para conseguir pagar uma renda que no tempo deles era menos 2 terços. Se saímos de casa dos nossos pais depois dos 30 somos acomodados se saímos antes somos putas ou vadios, se não aceitamos o assédio laboral que as empresas se acostumaram a praticar para que os funcionários vão embora sem direitos, e vamos embora com todos os direitos salvaguardados, somos delinquentes, fracos, geração á rasca e coisas menos bonitas dizem os que se efectivaram á mais 30 anos quanto um ser humano era menos descartável do que é agora. E por tudo isto e muito mais, o tanto que todos sabemos, que é bom só ás vezes ter alguém que saiba conversar ao nosso lado, que saiba falar de história, artes, filosofias, língua, livros e outras coisas em vez de emborcar vinho e pataniscas enquanto vê o Big Brother edição mil e quantos, é uma sensação tão incrível aprender e as pessoas nas suas mentes arrogantes e tacanhas, a determinado ponto acham que deixam de precisar de aprender, e portanto presumo, talvez pensem que já dominam todos os assuntos.

Dito isto, á muitos anos que se aceito beber um café com alguém não é porque essa pessoa tem o carro x ou aparência b mas sim porque de alguma forma despertou o meu interesse, não saio da minha casa para estar petrificada a olhar para o telemóvel ou falar sobre a novela das 5, se saio de casa é para ter uma daquelas conversas reveladoras sobre o estado das coisas no mundo, observar o mundo em meu redor e aprender, porque eu não deixei de aprender quando saí da escola e deus me livre de alguma vez deixar de aprender, desculpem-me, não me considero superior a ninguém se é que estão a pensar nisso, por isso é que faço perguntas ao Bruno constantemente sobre politica, nos últimos anos fiquei interessada eu dominar alguns assuntos e pareço uma criança a perguntar-lhe a toda a hora o que significa isto ou aquilo, na verdade, algumas pessoas denominam esse comportamento infantil, esse de fazer perguntas e ter sede de conhecimento, mas como percebem não sofro de soberba ou nenhum outro mal para que os outros me possam denominar de arrogante, a minha humildade permite-me admitir que muitas vezes os outros sabem mais que eu e por isso fazer perguntas sem qualquer pudor, todos temos algo a ensinar a alguém, até o mais leigo dos leigos, e por isso, o que me causa algum repudio não é o leigo que quer aprender e sim o leigo que acha que já sabe tudo e por isso recusa-se a aprender o que quer que seja.

Como perceberam então, eu sou uma pessoa chata, dessas que gosta de conversar com os outros sobre as coisas de que ninguém fala, e por isso, as pessoas que se cruzam comigo nos meus círculos sociais até podem dizer “tens umas boas pernas”, “que cabelo tão lindo” mas quando chega a altura de uma conversa não há muito para além disso a dizer. E heis que chego ao ponto fulcral da questão, porque pelo menos eu, quando não me interesso, desgosto ou tenho certa inimizade, distancio-me de todas as formas, não vou seguir no Instagram, não vou adicionar aos meus contatos telefónicos porque eu sigo com a minha vida e a pessoa segue com a sua, simples assim, no entanto hoje, eu pessoalmente, tive que apagar definitivamente o meu instagram porque mais uma vez apesar de tudo, apesar de tantas coisas que clarifiquei na minha vida, as pessoas, mesmo com todo a minha desinteressante forma de ser, até as que menos gostam de mim, não conseguem distanciar-se, e o que é que chamamos, como definem uma situação destas, em que alguém que não gosta de vocês por motivo nenhum quer continuar a saber tudo sobre vocês ainda assim? Maldade, hipocrisia? Será esse não gostar alguma forma de inveja dissimulada? Será aquela mania estranha que ás vezes o ser humano tem de acreditar que a vida é uma competição, que alguns de nós são melhores que outros e por aí adiante? Que conclusão hei de tirar sobre uma situação que se arrasta á anos, onde a distância já se formou de uma maneira em que não há mais volta mas as pessoas continuam a querer saber de mim, o que dizer de uma situação onde afastei-me para me proteger mas por assustador que pareça as pessoas continuam a querer fazer parte da minha vida sem que eu lhes tenha aberto a porta? Não será isso um pouco psicótico? Ou serei a única pessoa que quando de facto quer alguém distante isso significa de facto que não quero pensar nessa pessoa, vê-la ou saber o que quer que seja? Não será natural que nos afastemos de quem não gostamos?

Se é para atrair as atenções erradas eu prefiro estar na penumbra, continuar discreta enquanto sem querer desperto alguns ódios de estimação pelo simples facto de pensar, pelo simples facto de não ser apenas uma mulher considerada bonita e sem ideias próprias, prefiro ser estranha aos olhos dos outros do que abrir a minha vida como se fizesse parte de um reality show, prefiro ser mal falada, ignorada ou o que quer seja a ter pessoas a espreitar pela fechadura, certo é que não é preciso fazer o que quer seja para que haja sempre motivo para falatório e definitivamente as redes sociais ás vezes são uma ameaça feroz á nossa paz de espírito.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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