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Sobre a minha escrita

É uma longa história, bem longa, e até essa cheia de sobressaltos. Não me lembro da primeira vez que peguei numa caneta para escrever algo meu, afinal, comecei muito cedo, mas lembro-me de como comecei e lembro-me do caderno que usava para copiar os poemas que gostava mais, um caderno a5 com capa preta dos que se podia escrever a lápis na capa e nós miúdos colávamos autocolantes, fiquei orgulhosa quando preenchi todas as folhas e mais a meio já ia tentando escrever um poema aqui e outro ali. Tive acesso a poucos livros quando era miúda mas lembro-me que não me descartava dos livros de português, que tinham sempre histórias que nos ensinavam e cativavam, e depois o meu pai vendia uns livros a part-time, na altura acontecia muito haver pessoas a vender livros porta a porta para as Selecções Reader’s Digest, devia ser uma espécie de venda em pirâmide mas lembro-me que o meu pai safava-se e até chegou a levar alguns livros para casa, acho que com uns 12 anos peguei no primeiro livro que pude ler do início ao fim, Danielle Steel, bem pesado para uma miúda mas lembro-me que fiquei fascinada e não tinha muitas opções, lembro-me que ficava a admirar a capa e tentava absorver cada cena, cada descrição. O meu pai devia adorar a autora e eu passei a adorar também, acho que li a colecção toda que acabou por levar para casa.

Um dia, numa das minhas idas a Bragança, eu adorava Bragança mas detestava a minha tia, por essa altura não haviam construções á volta da casa dela pelo que eu ficava horas na varanda da minha prima mais velha a ler os livros que ela me emprestava, lembro-me que o primeiro que li lá foi de Nicholas Sparks, o Diário da nossa paixão, eu sei, cliché, mas de alguma forma aquele livro e o manto verde estendido á minha volta eram a paz que eu precisava para fugir da minha família disfuncional, eu precisava de uma história que não fosse a minha, e ali estava ela, ali estava o momento em que eu podia respirar fundo e viver a história de outra pessoa. Eu sentava-me nas espreguiçadeiras e respirava fundo de vez em quando para olhar a paisagem e pensar no quanto eu queria ter uma vida mais tranquila, nem acredito que foram outros tempos. Nessa altura o meu pai já não me escovava o cabelo como fazia antes, e eu, num estado em que não fazia ideia estar dava por mim com as minhas primas a escovar-me o cabelo por horas, o meu cabelo fazia canudos e era super comprido, embaraçava muito por ter caracóis mas lembro-me que todas as pessoas que me conheciam olhavam para mim com um sorriso complacente e diziam: “que pena, com um cabelo tão bonito”. A Andreia, a minha prima mais nova, era a forma que eu tinha de ver-me ao espelho, porque eu lembro-me que ela passava exatamente pelo mesmo que eu, e acho que detestava mais a minha tia por isso do que propriamente por as palavras dela tantas vezes terem feito um eco doloroso na minha vida. Sim, foi ela que sem ver tudo aquilo por que eu passava incentivava o meu pai a bater-me mais de dia para dia, foi ela também que escondeu-me que a minha mãe era vitima de violência doméstica uns anos mais tarde e como sempre, não se importou com uma situação da qual não fazia parte, foi ela que deixou de convidar a minha mãe para casa dela porque a minha mãe ficava mais doente de dia para dia e ela tinha vergonha de a apresentar a outras pessoas ou mesmo de ser vista com ela, eu via as lágrimas que a minha mãe derramava enquanto ela dava festas de luxo em casa porque o meu tio, em Angola, nunca mais quis voltar para ela mas enviava-lhe imenso dinheiro, talvez daí viesse a amargura, daí e dos boatos do meu tio ter-se casado com uma mulata em angola, de ter filhos com ela… É engraçado como enquanto somos crianças pagamos por coisas que só vimos a compreender anos mais tarde.

Voltando atrás no tempo acho que descobri qual era o meu género de escrita, ironicamente, quando os problemas em casa se começaram a intensificar, eu não tinha voz, com 9 anos eu literalmente obrigava os meus pais a sentarem-se á mesa e a conversar, em lágrimas, explicava o que eu sentia com a ingenuidade que eu tinha de pensar que tudo se podia sempre resolver com palavras, mas como sabem, nada ficou resolvido, anos mais tarde uma família que nunca o foi acabou por se dissolver e foi o melhor que nos podia ter acontecido, mas como estava a dizer eu não era levada a sério, algumas vezes até que me ouviram mas escusado será dizer que tudo se repetia num ciclo vicioso e extenuante e as minhas tentativas facilmente caiam em esquecimento. A minha letra nunca foi bonita, porque os meus pensamentos voavam e eu sem querer perder o fio á meada escrevia em lágrimas a toda a velocidade com uma escrita que só eu poderia decifrar, parecida até com a letra dos médicos, nunca quis ter uma letra bonita, acho que a beleza estava na escrita e nas coisas incríveis que nos saiam da alma em alguns momentos. Quando tive o meu primeiro computador, com 15 anos, com o pretexto de me servir para estudar, percebi que adorava o som dos dedos a dedilhar no teclado e que a minha escrita estava a desenvolver-se a passos rápidos por poder passar para o ecrã mais depressa tudo o que me ía na alma, e contente um dia percebi que a internet possibilitava que tantas outras pessoas me pudessem ler e identificar-se comigo. Foi assim que criei um blog, o meu primeiro blog “O meu diário” com o endereço karysecretsofmylife e a título anónimo, sem fotografias, sem o meu nome, sem nada que me pudesse identificar porque eu precisava de falar sobre o que acontecia em casa e tinha essa necessidade de encontrar pessoas com histórias semelhantes ás minhas ou no mínimo que me compreendessem, foi isso que acabou por acontecer, com os anos percebi que haviam pessoas que liam o que eu escrevia e choravam comigo.

“Hoje cheguei a casa da escola feliz, pus a cassete com o meu nome no leitor de vídeos e pus a minha musica favorita do momento a tocar “Senorita” do Justin Timberlake, eu achava a modelo que aparecia no vídeo linda e ficava a olhar para ela a sonhar que um dia seria como ela, depois fechava os olhos e dançava, era o meu momento de paz e felicidade, o meu lar, a minha casa, onde podia ser eu era o que eu pensava. O meu pai chegou a casa, nitidamente cansado e chateado, sentou-se no sofá e disse-me que tirasse a cassete, eu pedi-lhe só para que me deixasse acabar aquela música mas ele arregalou-me os olhos e fechou as mãos á volta dos meus ombros com imensa força, o ódio raiava dos olhos vermelhos e esbugalhados, aquele ódio era por mim que ele sentia, eu, a filha dele, atirou-me contra o chão e gritou: “eu cheguei a casa e para de dançar como uma puta” corri para o meu quarto para chorar, as minhas lágrimas não param de cair pelo meu rosto, não consigo parar, e eu estava tão feliz hoje. Ainda tenho as marcas dele nos meus braços.”

Eu tinha 15 anos quando escrevi isto, era sempre nesses momentos em que o meu coração parecia que ia pular peito fora e eu soluçava no meu quarto que eu decidia escrever e deitar para fora tudo o que me vinha na alma, no meu quarto, naquele espaço fechado, trancada, sentia-me um pouco mais segura, eu escrevia até que os soluços se desvanecessem, até que eu me pudesse acalmar, e depois relia tudo outra vez para perceber o que tinha acabado de acontecer comigo. Acho que os meus pais sempre souberam que eu tinha um diário, talvez nunca tenham percebido que de facto eu publicava tudo o que acontecia dentro daquela casa. E ali, num mundo dentro de mim, enquanto sentia ainda a pulsação nos meus braços que á pouco tinham sido espremidos nas mãos de um homem que eu pensei que me protegeria, eu sentia-me segura, tranquila, era o meu pequeno mundo.

Os anos passaram-se, a escrita continuou, e um dia, quando eu pensava que todo o inferno que eu tinha vivido tinha sido suficiente, percebo de repente que sem querer tinha trazido para a minha vida os mesmos padrões familiares em que vivi durante tantos anos, a mesma violência, um diário que eu mantinha á anos, a única testemunha que tinha sobrado na minha vida de tudo o que tinha vivido, o meu diário foi apagado e fiquei anos sem escrever, convencida que de facto a minha escrita era “estúpida” e que eu era demasiado ignorante para escrever, demasiado arrogante até por achar que podia escrever de forma correta. Foi assim que a história da minha vida apagou-se, os momentos de esperança e de tristeza, o meu diamante em bruto, as coisas boas que eu tinha escrito, a minha história e o sonho de a transformar em livro um dia apagaram-se, sob as ameaças e o desdém de alguém que jamais algum dia entenderá alguma forma de arte ou de humanidade. Nessa noite quase pus termo á minha vida, e não, não foi uma chamada de atenção, nesse dia eu “só” fiquei pendurada pelo meu pé de um quarto andar, aterrorizada, o tempo tinha parado e o medo que eu sentia parecia maior que o mundo, via o mundo de pernas para o ar e ali na iminência de perder a minha vida, ainda assim, tudo me parecia tão negro. Mas a vontade que eu tinha de acabar tudo era grande e suficiente para atirar-me daquele quarto andar, naquela noite, bebi todas as garrafas que haviam em casa (não eram minhas), nessa altura ainda detestava bebidas alcóolicas, misturei com todos os medicamentos que tinha, que eram poucos para minha sorte e esperei que a adrenalina e as tonturas camuflassem a dor que poderia sentir ao embater num chão frio, numa noite qualquer em que era suposto eu deixar de existir. Ninguém daria conta, a vida continuaria igual…

Não aconteceu, e apesar de tudo o que veio depois, ainda bem, claro que tentei recuperar o blog, e claro que quando mudei radicalmente de atitude e passei a ser dona do meu próprio nariz recomecei a escrever a minha história, mas já não era a mesma coisa, as coisas que eu tinha escrito, como as tinha sentido, já nada disso era igual, era impossível redigir quase 15 anos da montanha russa que tinha sido a minha vida, todos os episódios, todos os dias mais e menos felizes. É o que acontece quando vivemos a vida dos outros, arrependemo-nos.

A certa altura uma editora falou comigo, aceitou publicitar o meu livro e colocá-lo nas bancas das mais prestigiadas livrarias, estive a um dia de o ver impresso numa gráfica, a capa era uma rapariga, uma criança que tentava gritar e tinha a mão de um adulto em volta da sua boca, o meu pseudónimo era Camila Dias, não me lembro do título, acho que era algo como “Silenciada” pois foi como me senti até determinado ponto da minha vida, sobretudo como mulher. O que correu mal? Cheguei a ir a reuniões, a assinar contratos, mas os dois mil euros mais a falta de revisões deixaram-me a pensar, a história da minha vida não ia ser menosprezada novamente, não eram meras folhas de papel prontas para ser vendidas e render lucros, era a minha vida e aquelas 500 páginas, ouviram bem, não eram apenas mais uma venda. Valeram-me os elogios ao blog e todas as tentativas de me demover, virei a página mas talvez ainda sonhe com o dia em que uma editora repare em mim e decida publicar a minha história. Não é vaidade, é apenas o desejo de um dia poder fazer com que algumas pessoas não cometam os erros que eu cometi.

Hoje aqui estou eu, a escrever, e pouco á minha volta mudou, as pessoas não leem, muito menos escrevem quanto mais pensar, têm vidas boémias, vêm netflix, vão sair á noite, embebedam-se e não têm a mínima curiosidade pela vida, e eu penso quando escrevo e percebo muitas coisas pelo caminho, a minha professora de multimédia dizia-me que eu tinha muitas coisas importantes para dizer, leu o meu blog de uma ponta á outra, e eu nessa altura ainda sentia alguma vergonha dos meus sentimentos (isso foi muito antes de ficar sem o blog), e depois havia o Igor, foram as únicas duas pessoas que deram algum valor á minha escrita, o Igor não perdia um apontamento, uma frase, um detalhe e interpretava comigo cada palavra, as outras pessoas continuavam a desdenhar, a não ler, a não querer saber, até as que diziam em algum momento que me amavam. Mas não será estranho que as pessoas que nos amam não queiram saber o que nos vai na alma?

Foi a escrever que sarei todas as minhas feridas, que exorcizei cada fantasma do meu passado, foi a escrever que aprendi a ter calma e a pensar antes de agir, foi a escrever que percebi que chorar é preciso, assim como sorrir, como dançar, gritar, agradecer. Somos humanos e é na escrita que a minha alma se consegue ver ao espelho, sem máscaras, sem pensar que precisa de ficar bonito ou bem escrito. Esta sou eu, é esta a minha voz o meu rosto e o meu corpo. A partir de certa altura nunca mais permiti que me silenciassem, que alguma pessoa se julgasse no direito de camuflar quem eu sou, de tentar calar-me quando ironicamente todos os problemas que tive na minha vida aconteceram por eu não ter uma voz. Tudo teria sido evitado se eu tivesse sido ouvida, mas isto não é magoa nem é uma justificação para a escrita, porque de facto eu adoro escrever e faz-me bem, porque de entre tantas coisas que fiz mal, esta foi das poucas que mesmo nos piores momentos, eu fazia bem, a partir de hoje mudo o nome do meu blog, como uma forma de afirmar que nunca, nunca ninguém vai poder dizer-me quem é que eu tenho que ser, nunca o permitirei.

Um dia, quando eu envelhecer, os arrependimentos serão só meus, do que não fiz, prefiro sorrir e pensar no quanto aproveitei a vida que me sobrou depois de tantos anos a aprender a lidar com o lado negro deste mundo estranho. Prefiro ficar sozinha a alguma vez voltar a perder-me, nunca mais permitirei que a maldade das pessoas me atire para o fundo de um abismo do qual até hoje não percebo como saí.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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