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Soberba

Um dia, sem que o merecesses na verdade, fiz um esforço para te deixar feliz, como um gesto de confiança que me pediste e sobre o qual prometeste apreço, contei-te sobre mim.
Sabes a quantas pessoas falo sobre mim?
Contam-se pelos dedos as pessoas que sabem a minha história, e essas pessoas sabem-na porque viveram-na comigo, no entanto, ainda assim, nunca ouviram a minha história contada por mim, viveram-na, não souberam o que me passava pela cabeça enquanto a vivia, os desejos que tive enquanto a vivia.
Ainda assim não estiveste lá, pelas minhas palavras não sentiste o que senti apenas pudeste imaginar, e pelo que sofri apenas deste um encolher de ombros sem questionar por quais razões às vezes a vida torna-se tão severa. Tão pouco estiveste lá para ver a força que tive que erguer, as lágrimas que derramei quando acreditei que não podia mais, os sorrisos que dei por em dias aleatórios de repente reunir forças outra vez. Não sabes as coisas das quais abdiquei, os sonhos dos quais desisti, as pessoas a quem queria ter abraçado mais uma vez. Não sabes de nada, de absolutamente nada de mim, porque não estiveste na minha pele, não estiveste no meu fôlego ou nos meus ouvidos, não foste os meus olhos nem a minha verdade. Seguiste uma vida banal enquanto eu travava as minhas batalhas, alheia, completamente alheia a qualquer tipo de empatia. Será que é possível que alguém que nunca experienciou determinados sentimentos estar de facto empático com outro ser humano que os esteja a viver? Será?
Mas quem não vive? Não estamos todos sujeitos a leis estranhas de viver, que nos regem os dias, as horas, meses, anos. Não estaremos todos expostos a um certo nível de dor porque sem essa exposição não estaríamos vivos? Não pode qualquer pessoa que já passou por qualquer tipo de dor ainda que não tenha sido a minha compreender a minha dor também?
Então diz-me o que há de errado contigo? Porque habita em ti algo que não é vida nem coisa nenhuma? Porque destróis pensamentos, vontades e luzes ao final da rua?
Onde está a vida que alguma vez habitou em ti? Talvez escondida na soberba? Talvez a vida tenha sido empurrada para o fundo de um pensamento cheio de ganância e vontades de dominar o mundo em que tu habitas? Talvez…
Talvez não queiras viver, talvez não queiras deixar viver, e assim, tudo o que passa por ti acaba por esmorecer. Um sorriso, uma flor, uma pequena gargalhada, um sonho, um tropeço, uma vontade… Pequenos reparos numa vida feliz que não podem estar presentes em teu redor.
Por isso recorda-te, que se um dia contei-te a minha história, o tempo voa e rouba-nos o que deitamos fora, às vezes sopra-nos ao ouvido que erramos e segue levando de ti as coisas felizes que tanto desprezas, o conjunto de detalhes que tornam uma vida nisso mesmo… Em vida!

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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