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Passividade

Esta foi a palavra que muitas vezes quase destruía-me por dentro ao longo da minha vida, sempre habituei-me a ouvir: “ignora” ou “mais vale não fazeres nada se não é pior” e coisas do género.
Todas essas frases eram dirigidas a mim quando por algum motivo vazio alguém de repente fazia-me de alvo e tentava-me atingir, e eu, chateada, magoada, lá ia acatando essas frases e acreditando que era o melhor. Como se ficarmos parados de braços abertos não tornasse mais fácil sermos atingidos.

Até que… Um dia, motivada pelo facto de ser um ser humano e de também ter o direito de me cansar de estar sempre na mira e tentar desviar-me das balas sem retaliar, um dia cansei-me e decidi retaliar.
O engraçado é que a partir desse dia deixei de ser completamente ignorada para passar a ser a megera, a má da fita, a que não dá ponto sem nó. É impressionante a forma manipuladora e tóxica como algumas pessoas têm de nos prender às suas manhas não é? Mas isso fez-me ficar ainda mais chateada, quer dizer, eu tinha passado toda a minha vida a comportar-me e a aceitar calada tantas coisas que nunca deveria ter aceitado, e quando finalmente retalio como afinal qualquer pessoa deveria fazer, aquela pessoa figurada que todo o tempo tornou-me miserável e infeliz, de repente, essa pessoa é a vítima e eu sou a vilã?! Merda, já chega! Foi então que comecei a fazer uma organização da minha vida da forma mais crua que possam imaginar, a “deitar fora” o que não me acrescentava e a trazer o que me fazia falta, como todas as mudanças na vida envolvem alguma coragem e sofrimento, claro que me ressenti e tive medo durante alguns tempos, mas depois a paz foi-se instalando com o passar dos dias, e por fim pude começar a viver sem ter sempre aquelas vozes na minha cabeça que me tentavam impedir disso mesmo, de viver.
De repente como tinha paz e tranquilidade, tantas ideias foram surgindo e transformando os meus dias, quase parecia que sem que eu percebesse, um anjo tinha-me sussurrado ao ouvido semanas antes e aconselhado a fazer todas aquelas mudanças.Também tinha desaparecido aquele aperto constante, aquela raiva, aquela revolta que muitas vezes dirigia-se para os lugares errados, pudera, é normal isso acontecer quando não tratamos a origem das nossas mágoas. De que nos vale tratar de uma gripe se continuarmos expostos ao frio?
…E então ontem, a pensar com um sorriso em todas as voltas que a minha vida deu nos últimos tempos, comecei a ouvir uma palestra no YouTube de alguém que admiro muito, Leandro Karnal, essa palestra explicava muito resumidamente que o que tinha acontecido ao longo dos anos da minha vida, é que infelizmente lidei todo esse tempo com pessoas narcisistas que não pensavam em mais nada para além de si próprias, o que me fez entrar tantas vezes em depressão, desmotivar-me e culpar-me por situações sobre as quais eu não tinha qualquer controlo. Adoro o Leandro Karnal, a sério que têm que ouvi-lo, pode parecer cliché mas ele ajuda-nos a pensar, e no meu caso já confirmou muitas coisas que eu tinha para mim e não me dava ao luxo de exteriorizar.

O último sentimento que experimentei então, depois de ouvir tudo aquilo, depois de perceber que na verdade fui manipulada e que por isso passei por tantas coisas cruéis, foi desdém, foi desprezo, foi nojo. Eu sei, são palavras fortes, mas como é que podem as pessoas considerar-se nossas amigas dizendo-nos coisas que sabem que nos podem prejudicar? Mas afinal não é a sociedade toda um pouco assim? Passiva? Depois disso senti pena, senti pena porque talvez não tenham feito por mal, talvez tenham-me aconselhado erradamente porque nem elas próprias agiam bem em situações semelhantes nas suas próprias vidas. No entanto essas mesmas pessoas eram culpadas por condenar-me por ter finalmente agido, isso não, eu não permitiria, foi então que fiz outra limpeza, outra organização, prevenindo a eventualidade de voltar a ouvir essas mesmas pessoas, exclui e adicionei mais coisas, e percebi…Até hoje vou reorganizando e recomeçando e só vejo coisas boas acontecerem, quando finalmente temos respeito por nós mesmos, e começamos a ouvir algo que se chama razão, de repente, tudo começa a desenrolar-se automaticamente. No fundo era como se a minha vida fosse um comboio impedido de seguir caminho por ter a ferrovia danificada em certo ponto, e de repente, um pequeno arranjo, me fizesse chegar a lugares onde nunca tinha chegado. Na verdade o comboio funcionava, mas o caminho não estava bem delineado.

A passividade é a palavra de ordem que aperta a mão à depressão para dar as boas-vindas, é a que leva tantos de nós a desistir, a deixar de tentar, a calar. Por isso nunca devíamos aceitar ficar calados numa situação em que temos algo construtivo a dizer, acumulamos “lixo” emocional que com o tempo fica mais e mais difícil de organizar e exteriorizar. Não o permitam, não aceitem com um sorriso triste que vos tentem humilhar quando sabem que não está certo, não digam que sim a situações onde queriam dizer não. O respeito por nós enquanto seres humanos pode fazer uma diferença gigante na altura de encararmos novos desafios e conquistar novas metas, mais importante que os outros acreditarem em nós é nós acreditarmos, e tudo o resto é uma bola de neve. No bom sentido.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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