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Humildade perdida

Á uns tempos que já andava a pensar no assunto, como se alguém o quisesse propositadamente colocar na minha cabeça, ele ia aparecendo nos meus pensamentos de forma descoordenada, vaga, mas ganhando forma e sentido.

A guerra na Ucrânia deve ter sido a gota de água, porque de repente, por mais distante e vaga que tenha sido relembrei-me de pequenos fragmentos da minha infância, que eram demasiado vagos para que me sentisse traumatizada, pelo menos que eu soubesse, porque quem já sofreu um trauma sabe que ele se revela nas mais pequenas coisas, nas coisas mais absurdas, damos por nós e com pequenos sinais aqui e ali percebemos que afinal temos um trauma, mas acho que o meu em nada tem a ver com a guerra. Bem, mas voltando ao assunto, quando a guerra começou lembrei-me eu dos momentos de guerra que constituíram a minha infância, do contraste que sempre foram as minhas memórias, divididas entra a casa enorme que tínhamos onde dávamos festas, comíamos, dançávamos e bebíamos e a fuga para Portugal com meia dúzia de trapos ás costas com uma vida totalmente diferente deixada para trás, como é possível que sem saber eu tenha sido tão rica de formas tão diferentes, a nossa casa hoje transformada em hospital são as primeiras memórias que tenho de dançar e de ver pessoas com a pele tingida pelo sol forte de angola felizes e sorridentes, uma dessas pessoas era a minha mãe e fico triste por não lembrar-me do sorriso dela. A minha mãe era linda, com uns olhos negros grandes, cabelo negro bem liso e brilhante, comprido a dar pelas costas e um rosto angelical, um corpo que nem ela percebia ser perfeito, características que não combinavam com tamanha despreparação para o que aí vinha, sempre que falo do meu passado, ainda que isso tivesse implicado que eu não tivesse nascido, se pudesse por um ato de magia teria abraçado a minha mãe e ter-lhe ia dito que não se casasse, que não tivesse filhos, que fosse livre e feliz sozinha. A minha mãe parecia uma daquelas modelos saídas de uma capa de revista, alta mas com curvas, um rosto tão bonito que um simples batom a deixava radiante, e ainda assim andava sempre cabisbaixa, sempre de costas curvadas e cabeça virada para o chão, alheia á beleza que o mundo tinha-lhe dado. O amor destruiu a mulher que eu queria ter conhecido um dia, ela fez tanto por ser minha mãe e tudo o que me entristeceu é que no meio dessa luta perdida eu nem me importei, eu só queria que ela tivesse sido mulher e que em meio a tantos papéis injustos e que não lhe pertenciam, ela tivesse colocado um batom, penteado os cabelos e levantado a cabeça.

Eu sei no que estão a pensar, já divaguei, eu sou assim mesmo, quando se fala em Angola perco-me, porque não sou negra mas nasci lá, o cheiro da terra, o sorriso das pessoas, a cor da areia ficam perdidos numa angústia estranha que sinto e não entendo em parte, a angústia que sinto porque provavelmente nunca conseguirei lá ir, os perigos de ir para um país onde nasci e assim que abri os olhos para um céu azul e quente, percebi que era bom demais para que durasse demasiado tempo, aquele lugar pertenceria para sempre a cada entranha do meu ser, mas ser-me ia negado, porque existem sempre os donos de coisa nenhuma, as pessoas, as que se julgam sábias e espertas mas que nem felizes são e apoderam-se de uma terra que nem é delas nem de ninguém e sim de todos, das que a amam.

Divaguei outra vez, desculpem, mas é esse o “respeito” que tenho pela guerra, o saber que um dia tive de tudo e isso foi-me tirado por não sei quem até hoje, e sei, que a cada segundo algumas pessoas passam pelo mesmo que os meus pais, de lágrimas no rosto, com vidas ás costas, com esperanças ténues para que não se magoem outra vez iludidas. No fundo, pude perceber, ao ver as lágrimas rolar pelo rosto de um senhor que carregava o cão ás costas, que somos todos humanos, orgânicos, frágeis, e se por um lado a tristeza apoderou-se de mim como um monstro sedento nesse momento, porque eu só queria ampará-lo e agradecer por preocupar-se com os animais, por outro, senti uma paz em relação a mim mesma que á muito estava adormecida, a paz de saber que eu também sou apenas humana, orgânica, pele e osso, alma e entranhas, com mil estrelas e caixas de pensamentos a construir uma pessoa, alguém, que talvez um dia se reduza apenas a um pequeno lapso no tempo. É isso que eu sou.

(…) 2 dias de guerra, eu não choro, não tenho esse direito enquanto eu vejo a guerra do meu sofá e as pessoas levantam-se por baixo dos escombros, seria só ridículo, mas sinto uma tristeza grande a crescer dentro de mim ao mesmo tempo em que a gigante realidade se vai instalando a cada dia que passa, há um casal de veterinários que salva animais, eles não saíram de Odessa, eles passam o dia inteiro á procura de animais deixados para trás, naquilo que ninguém ou quase ninguém tem a coragem de referir como pura cobardia, eles referem, entrelinhas mas referem, eles e o Andrea Cisternino fazem o mesmo, aquecem a alma das pessoas que quase perderam, por demasiadas vezes, a fé na humanidade, a diferença é que o Andrea tem “só” 400 animais no abrigo. Sinto-me como se conhecesse estas pessoas e elas fossem parte da minha família, não tenho conseguido trabalhar mas respeito o tempo que preciso para assimilar tudo isto, talvez em uma semana consiga contribuir com alguma ajuda.

A iminência de uma guerra na Europa está lá e por isso falo com o Bruno, tenho uma conversa muito séria com ele que sei que o abalou mas foi necessária, prevemos o pior cenário e com base nisso tomamos providências, fazemos os passaportes, os documentos da Khaleesi e do Mickey, já começámos a vender coisas que iriamos acabar por vender de qualquer das formas e seguimos assim cautelosos, sem gastos desnecessários porque para já não sabemos quando teremos que pegar nas nossas coisas e ir embora.

Consulto o Instagram do casal de veterinários e do Andrea um monte de vezes durante o dia para verificar se estão bem, suspiro de alivio mas só por mais um dia, porque os aviões passam por cima do abrigo e sei que muitas pessoas ficam nesses momentos com o coração esmagado nas mãos á espera que não seja hoje. Entretanto quero ver como as outras pessoas reagem a tudo isto, volto um pouco á minha vida antiga e vejo influencers a criar artigos com títulos do género “como abstrair-me da guerra?”, desculpem-me mas só me apetece dar-lhe um estalo, a guerra não é um manual de maquiagem, algumas pessoas têm família na Ucrânia e ficam horas a tentar marcar o contacto das famílias em completo desespero por elas não atenderem o telemovel, não há ninguém que nos possa ensinar a lidar com isso. Vasculho outros instagrans e vejo festas excêntricas, vestes excêntricas, maquiagens excêntricas, de repente tudo parece-me demais, o meu estomago revira-se só de pensar que por tempos eu tentei ser aquelas pessoas, e onde um dia eu vi algo hoje vejo um vazio, vejo que mudei, vejo que o excessivo cada vez mais é algo que repudio e desagrada-me. Eu sei, repudiar é uma palavra forte mas relembrem-me porque é importante passar dez cremes diferentes durante a manhã? Porque é que tenho que gastar rios de dinheiro para ter a pele imaculada da pessoa x, comprar roupas que só vou usar uma vez ou falar de forma histérica nas redes sociais só para que os outros reparem em mim, só porque eu estou quase a gritar…

Ontem nem por acaso um vídeo veio parar ás minhas mãos, e em 30 segundos aquele homem disse tudo, ele falou do ridículo que é a sociedade hoje, dos excessos, das diferenças, do excêntrico. Da falta de sentido é que algumas pessoas tenham tanto dinheiro que não o possam usar nem em 100 vidas. Percebo a ambição, mas não percebo a ganância, 1 milhão de euros na minha conta e toda a minha vida ficaria organizada, mas 10 milhões, 20 milhões? Todos trabalhamos e temos rotinas diárias duras, acordamos cedo, ás vezes ficamos meses sem folgar, horas sem comer, fazemos horas a mais, engolimos o sapo, ás vezes até chegamos a casa a chorar e ao final de um ano ganhamos 12 mil euros se não menos, as celebridades têm que defender cada vez mais o trabalho delas, dizem que trabalham duro, que fazem muitas horas, que passam por muita pressão, eu sorrio e penso que será de tamanha arrogância julgar que as pessoas comuns encaram uma realidade tão dura e ainda acreditariam em tamanhas barbaridades. A nossa vida tira-nos a inocência que nos faria ficar á mercê de acreditar nestas barbaridades ditas diariamente: “eu trabalho duro por isso é que ganho tão bem”, a única diferença entre nós, estranhamente todos humanos é que o trabalho de uns vale quase nada para que o trabalho dos outros seja excessivamente valorizado. Não vou ser hipócrita, obviamente que se um cargo de pseudocelebridade me caísse nas mãos eu aceitaria de bandeja, mas acho que nunca conseguiria empregar tal frase, porque mesmo falando de dinheiro, a hipocrisia tem limites. E é assim que ao ver um desses posts a falar sobre a guerra na Ucrânia como se falássemos de uma aula de meditação, coloco as mãos á cabeça e penso que existem pessoas que não sabem nada sobre a guerra. Mas a minha “tour” não acaba aqui, percebo que até tive alguma “sorte” em cruzar-me com alguém que falasse sobre ela, a grande maioria põe um link nos stories só para dizer que sabe e logo a seguir temos posts sobre maquiagem e roupas de marca, não estou a julgar, é o trabalho delas, mas existe algo de muito obscuro nisto tudo, e se existem as que publicam nos stories também existem as que ignoram por completo o assunto, eu sou uma pessoa feliz, que ouve música e dança mas a necessidade de publicitar sorrisos e dança enquanto se vestem como artistas pop faz-me alguma confusão, parece-me tudo menos espontâneo, os sorrisos parecem-me demasiadamente abertos, como quem força o maxilar num movimento cansativo e repetitivo, é isso que acontece quando um sorriso não vem de facto do fundo da nossa alma, cansamo-nos, mas a sociedade diz “sorri, sorri, sorri para a fotografia” e assim dás por ti a perguntar quando foi a última vez que sorriste de facto e quando é que isso tornou-se numa aborrecida imposição. Eu era daquelas pessoas que todos os dias acompanhava os stories e os posts de determinadas celebridades, todos os dias ali estava o produto que queriam vender subentendido, mesmo que no fundo do cenário, alguém segurava o perfume e como num passo de mágica e voilá, de repente caíam mais milhares de vendas e mais dinheiro sem destino. Ela já tinha assegurado a família toda, casas aqui e ali por todo o mundo, carros caros, roupas que não caberiam na minha casa, sapatos (típico!), malas, e quilos de maquiagem para o mais variado tipo de situações, para disfarçar e realçar, mas sobretudo para disfarçar. De repente para minha surpresa percebo que não invejo nem desejo nada daquilo, quero o dinheiro suficiente para ter paz de espírito, uma vida sem percalços, sim sentir-me bonita e ter roupa e sapatos suficientes para não precisar de ir ás compras durante muito tempo, sim, porque eu detesto ir ás compras, mas esse não é o caso destas pessoas pois não? Elas querem cada vez mais e mais, e sinto uma certa pena dessa ausência de tranquilidade, daquilo que já é uma ganância desmedida, da ansiedade e falta de paz que estas pessoas devem sentir por não fazerem a mínima ideia de que não precisavam de mais. Sinto um certo desprezo pela cultura das celebridades, pela glamourização de todas as coisas, pelo facto de o Ronaldo ter 30 carros diferentes suponho quando só consegue conduzir um de cada vez, enquanto outro ser humano anónimo em um lugar qualquer no mundo trabalha horas e semanas, meses e talvez até anos para conseguir pagar um carro. Entristece-me que enquanto uns tenham dinheiro até mais não, que enfeitem as contas do banco com extensos números e não tenham mais do que essa utilidade, outros sonhem com uma casa boa a vida inteira. É uma sensação que sinto á muito, se eu ganhasse a lotaria provavelmente abriria instituições de caridade e daria algum sentido á minha vida, obviamente que usaria também esse dinheiro para dar conforto á minha vida, mas nunca para ser excêntrica porque eu odeio excentricidade, desprezo tudo o que é desnecessário e o quão desrespeitoso é existirem tantas pessoas sem um lar enquanto outros mantêm casas de luxo fechadas por anos e anos só para manter um certo estatuto, tem tudo a ver com aparências e menos com viver de forma digna, e se não temos a culpa de o sistema ser assim, sim é um facto, mas os que estão no topo têm definitivamente a culpa por não o tentarem equilibrar, porque se o Ronaldo é elogiado por doar 1 milhão de euros que não é nem uma décima parte de toda a sua riqueza a senhora que acolhe crianças e as alimenta por anos sem conseguir fazer uma obra no teto que ameaça colapsar a qualquer momento é deixada no anonimato, porque apesar de a taxa de esforço ser maior o Ronaldo ganhou 1 milhão de euros em meia hora a fazer um comercial e a senhora ganhou tostões a vida toda o que lhe permitiu fazer muito menos do que aquilo que queria pelos outros.

Com um certo desprezo por esse mundo confesso, num click acabo com o meu Instagram, agora, uso as minhas redes sociais apenas para motivos de trabalho, que foram colocadas em privado e completamente fechadas a este tipo de glamourização da vida real que em nada condiz com a realidade, não tinha percebido quão obscena é esta fuga á realidade que sempre aconteceu nestes meios, que existam influencers a ditar-nos como temos que nos arranjar e maquiar para ficar perfeitas, ás vezes até com a lata de nos dizer o que não devemos fazer, isso, até se vai tolerando, até se vai tolerando a romantização da maternidade, contribuir para um machismo desanimador que vem ressurgindo como uma doença que á muito se tenta erradicar, “parir não é nada demais dizem elas”, com um sorriso orquestrado pelo dentista que aparece em todas as televisões e molda-lhes o sorriso em troca de uma publicidadezinha, moldam-nas de forma a que nunca se cansem de forçar sorrisos, até isso vou tolerando em prol da minha sanidade mental, mas ignorar por completo o estado das coisas e fazer festas, pior, alegar que não é bom para o nosso yin e yang preocuparmo-nos com a guerra atingiu todos os meus limites e acabou com qualquer dúvida sobre a minha posição perante estes mundos superficiais. Definitivamente, e para não dizer pior, as pessoas deveriam lavar a boca com sabão antes de pronunciar uma das palavras mais tristes que pode fazer parte da nossa história, talvez, e sim vou mesmo dizê-lo, precisassem de sentir por breves momentos o que é viver debaixo de uma guerra, aposto que nesse momento a romantização de qualquer merda acabaria por desaparecer, como uma chapada de humildade para a maioria das pessoas, claro que há ainda assim os que não acordam, os que se desumanizam ainda mais, aqueles que roubam a vizinha idosa em tempos de guerra e fome, os que fogem da probabilidade de lhes cair o teto em cima mas deixam os animais á mercê dessa “sorte” e ainda choram nas televisões, claro que os há, os maus, os que nas situações que mais nos humanizam á grande maioria de nós, mais se desumanizam. Mas sim, talvez essas influencers precisassem dessa chapada de humildade que é a guerra e assim parassem de apodrecer uma sociedade que já tem tantos vícios e tantos males, a imposição de sorrisos robóticos e quase que eternos durante todo o nosso dia, como se não sorrir, pensar, refletir, chorar até, não fosse algo bonito e que fizesse parte da vida. A vida é bonita e elas nem vêm, escondem-se atrás de um batom da Channel que lhes custou os olhos da cara e contribui muito vagamente para o seu bem estar, para não dizer nada. Mas impõem-nos esse batom como aquele que nos vem devolver a auto estima e espontaneidade que perdemos algures neste percurso feito por selfies e fotografias repetidas umas 30 vezes até se transformarem num possível cartaz publicitário, e como eu, muitas de nós acabamos por acreditar que esse batom da Channel é melhor que os outros todos, acessíveis e igualmente bonitos, compramos e estranhamente continuamo-nos a sentir tristes e vazias sem perceber porquê, já que aquele batom era a derradeira promessa da felicidade.

Pensei muito bem antes de escrever este texto e pensei que direito tinha eu a criticar, a falar sobre este assunto, fui frequentadora deste meio por anos e de repente abateu-se uma realidade desoladora sobre mim mas que ironicamente tem-me trazido uma paz de espírito que nunca tive, mas acabei por concluir que como leitora afincada e observadora dedicada destes meios que fui por tanto tempo, do tanto que me deixei influenciar, do tão bem que falei, do quanto observei e revendi estas ideias, sim, tenho todo o direito a falar sobre o outro lado da moeda e que poucos conhecem. E de quem é a culpa? De quem sabe e começou toda esta história, todo este imbróglio de mentiras vendidas como se a nossa vida se pudesse transformar num conto de fadas, a culpa também foi minha que ainda sem saber acreditei e contribui para a crença de que as influencers são perfeitas, de que a vida pode ser perfeita quando tudo na nossa vida é imperfeito, humano, orgânico. E sabem, ainda bem que assim é, ainda bem que bebemos um copo a mais de vez em quando ou a casa está virada de pantanas, ainda bem que os cães de vez em quando ladram a alguém pela rua ou que nem sempre tiro a maquiagem antes de me deitar. Vendem-nos livros de auto-ajuda, dizem-nos vezes sem conta “acordem ás 6h da manhã”, “sorriam mesmo que não tenham vontade”, “como elevar uma auto-estima em 15 minutos”, vendem-nos “soluções” rápidas que não passam de pensos rápidos para disfarçar as nossas feridas quando elas nunca deixarão de existir a um passo de mágica como nos tentam fazer acreditar. Hoje em dia não consigo tirar uma fotografia sem sentir-me nostálgica com as minhas fotografias em criança, e sei que provavelmente não vou pegar na minha câmara fotográfica até que a espontaneidade volte aos retratos imperfeitos que adoro fazer dos meus dias, provavelmente publicarei as minhas fotografias em algum lado porque adoro partilhar, mas sem necessidade de aprovação de coisíssima nenhuma, apenas para retratar a vida como ela é, sem floreados. Não nos basta a vida difícil que levamos, os empregos, as rotinas, os desafios e ainda nos impõem que sorriamos a toda a hora com a promessa de que isso nos tirará da famosa depressão e ansiedade, quando, ironicamente, isso afoga-nos ainda mais nesses desfechos, porque simplesmente dão-nos todos os conselhos do mundo mas nunca nos dizem para respirarmos fundo e respeitarmos a nossa essência, quem somos, ninguém nos explica que não existe nada de mal em ter dias maus ou uma borbulha aqui ou ali, ninguém nos explica que usar um batom comprado no continente enquanto enchemos a despensa de comida não vai mudar a nossa essência só porque largámos um Channel, que as fotografias continuarão bonitas e que o mesmo brilho que temos permanece. Ninguém explica, sobretudo ás mulheres que são as que estatisticamente sofrem mais de depressão e ansiedade, que não têm que competir umas com as outras, que não devem acreditar nas capas de revistas que dizem ” a mulher mais bonita do mundo é esta” quando provavelmente o redator nem conhece nem de perto todas as mulheres, todas as nossas vidas, culturas, sorrisos e tristezas, no fundo quem pode julgar as mulheres quando cada artigo publicado é sempre para nos comparar, pressionar de certa forma até, como são permitidos títulos ” a mulher mais sexy da cidade de Leiria” quando muitas de nós está preocupada com o futuro e em criar prosperidade em vez de aparecer numa capa de revista? Quando é que a imprensa e tudo o que é publico vai deixar de servir para desvalorizar o nosso intelecto em prol de um padrão de beleza fictício?

Quando percebi tudo isto, e desculpem, mas ás vezes parece que estou a fugir do assunto quando na verdade tenho sempre em mente onde quero chegar com tudo isto, fiquei mais feliz, mais plena e calma, ironicamente a minha autoestima está mais forte, sinto-me mais confiante, mesmo em plena ameaça de guerra sabe bem poder vender todas as tralhas inúteis que me foram vendidas num spot publicitário qualquer e que percebi que não preciso. Ontem foram mais de 10 anúncios que coloquei no Olx e tenho mais uns 30 para colocar, ás vezes podemos pensar que as coisas que temos nos definem, erradamente, porque eu sei que se a guerra chegasse á Europa pegaria nos meus dois cães e carregaria a ração da Khaleesi que tem uma doença crónica e não sobreviveria muito tempo sem ela, durante o tempo que fosse preciso, e ficaria sem comer o tempo que fosse preciso, porque para mim é essa a importância da vida, o respeito que tenho por ela. A semana passada eu e o Bruno fomos fazer os passaportes dos animais e falar com a Tap caso precisássemos de emigrar mais cedo, na iminência de acontecer alguma coisa e caso tenhamos que sair de Portugal de repente, ninguém nos pode impedir de levar o Mickey e a Khaleesi porque temos a papelada toda tratada. Provavelmente vou ficar muito chateada por ter que trabalhar duro outra vez para construir tudo o que construi até agora, mas não quero acabar já a minha vida, nem quero que o Bruno vá lutar.

Hoje acordei cedo, chamei a Khaleesi para a cama e num pulo ela meteu-se debaixo das mantas, afaguei-lhe o pelo e ela fechava os olhos nitidamente feliz, o Bruno preparava-se para treinar e eu sentia que pela primeira vez tinha mesmo vontade de sorrir e viver, é esta a magia de retirar todas as imposições sociais que colocam na nossa vida enquanto mulheres. Hoje não passei creme hidratante, maquiei-me e estiquei o cabelo, tenho andado a acabar os mil e um cremes que usava e loções milagrosas para reduzir os meus rituais a muito menos de metade, e enquanto as prateleiras esvaziam-se percebo que não tem nada de mal se hoje pular uma refeição ou não me apetecer lavar a loiça, vou trabalhar em 1 hora e meia e pela primeira vez não exijo estar polida e perfeita como uma boneca de porcelana, o engraçado é que ninguém nota a diferença, estava tudo na minha cabeça. Obviamente que não me vou desleixar porque o meu trabalho exige algum cuidado, mas por incrível que pareça até me sinto mais bonita.

Hoje é o dia em que envio uma mensagem á minha mãe a dizer que estou na iminência de emigrar, não quero falar com aquele homem horroroso e por isso deixo-lhe uma mensagem na esperança de que ela me ligue e nos possamos ver em breve, talvez com a possibilidade de ir para um país distante e de nunca mais nos vermos ela perceba determinadas coisas, talvez a guerra vivida uma segunda vez mesmo que através de uma televisão a faça relembrar-se da importância da vida. Talvez eu ajude-a a encontrar-se como eu me encontrei nos últimos dias…

Talvez eu tenha estado sempre em guerra dentro de mim e está tudo bem porque cheguei á inevitável conclusão de que somos o que somos, e que não existe nada de mal em deixar que as nossas cicatrizes nos definam, porque é isso que nos torna humanos e interessantes, talvez seja essa a recompensa de todas as coisas más por que passei, uma dose extra de sabedoria e humildade e consequentemente uma paz de espírito ao entender algumas coisas.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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