Diário, Saúde
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Gastronomia tuga

Toda a gente nos fala do tabaco, não fumes dizem, faz mal, ataca os pulmões, provoca cancro, e dizem-no enquanto á socapa esgueiram-se para fumar mais um cigarro, enquanto isso o nosso grupo de “amigos” na escola nos apelida de mariquinhas por não termos coragem de queimar os nossos pulmões, fumar dá estilo pensam, as rugas á volta da boca, as manchas na pele e os dentes apodrecidos também devem dar pinta… Depois vem o álcool, ainda lembro-me de uma gorduchinha sem autoestima nenhuma e que pregava coragem a fazer coisas estupidas só para chamar a atenção dos outros, especialmente dos rapazes, eu tinha uns 17 anos e ela decidiu focar-se em mim, por não ter mais nada que fazer provavelmente, abanei a cabeça quando insistiu pela milésima vez que eu tinha que beber, como se o meu fígado e o dela fossem gémeos, como não lhe dei atenção olhou-me de soslaio a noite inteira, acabou a noite quase em coma alcoólico com meia escola a gozar com ela e a atirar-se ao rapaz que gostava de mim naquela altura, soluçava, declarou-se a ele e ele desmanchou-se a rir e nessa altura fez-se luz na minha cabeça, ah então é por isso que não gostas de mim. A questão é que eu nao iria beber só para satisfazer as necessidades de atenção de alguém, e uma noite, lembro-me perfeitamente disso porque foi a primeira vez que me senti realmente atraída por alguém, decidi beber um copo de beirão mas um amigo meu disse que não precisava de álcool para me inserir ali pois eles gostavam de mim, acho que corei e desisti do pedido, tinha adorado aquela atenção e a Maria acabou por dizer-me nessa noite que o Fabio tinha estado a observar-me a noite toda, percebi logo que felizmente tinha um coração inteligente que se sentia atraído por homens decentes. Mal eu sabia que o álcool quase destruiria a minha vida alguns anos mais tarde, mas isso é outra história, uma história de abusos e onde eu não existi nem vivi.

Tudo para dizer que existe uma hierarquia para estes vícios mas os vícios que mais repulsa me causam são os mais bem aceites socialmente, exatamente por isso, no fundo todas as pessoas sabem que faz mal mas não querem saber, só querem que se juntem mais pessoas ao barco para não se sentirem tão fracas e excluídas, como todas as imposições sociais da sociedade, esta é mais uma delas repleta de egoísmo. Eu adoro beber um bom copo de vinho ao jantar, por isso não me levem a mal, aliás, nem é disso que vou falar, vou falar-vos de comida, do vicio social, daquilo que serve de pretexto para tudo, da obsessão constante das pessoas por isso tanto que hoje em dia são poucas as que sabem distinguir fome de gula.

Desde muito cedo tinha pouco apetite, sempre fui magra, muito também devido ao meu estilo de vida, desde criança a prática de desporto fez parte da minha vida, tinha uma energia inesgotável, estava sempre feliz, sorridente e com ideias para pôr em prática. O problema começa a crescer quando as pessoas repetem incessantemente a mesma coisa e tentam induzi-lo na tua cabeça até que se transforme num vírus que se dissemina em ti, sempre interessei-me imenso também por nutrição, o que acabou por fazer com que diversas vezes chama-se a atenção da minha mãe para o facto de que se ela continuasse a comer assim iria acabar muito doente, infelizmente foi o que aconteceu, as horas que eu perdia a ler as revistas de saúde não me serviram de muito, infelizmente porque acho que o apetite sempre foi o único escape da minha mãe.

E é a isso que acho que a comida se resume, a um escape infeliz da realidade, as pessoas não querem admitir que estão profundamente infelizes e aborrecidas, então refugiam-se na comida, pensassem na sua vida sexual e em cuidar delas mesmas e não acabariam tão sozinhas, divorciadas e com o transtorno pela comida ainda maior. Eu acho que a sociedade portuguesa no geral tem uma obsessão pela comida, se saímos á noite tem que haver sempre a tal janta primeiro, e se os jantares na altura em que eu tinha 20 anos serviam para conviver, hoje em dia servem para atafulhar comida enquanto consultam o telemóvel, provavelmente já nem olham para o garfo e dão garfadas rápidas e compulsivas e sem dar tempo ao corpo se quer de se sentir cheio já estão a pedir mais qualquer coisa. Miúdos com 20 anos já têm barriga e pré obesidade, para não falar quando acontece mais cedo.

Faz-me lembrar um caso de um familiar que com 10 anos pesava cerca de 130 quilos, e a avó que era a cuidadora dele ficava orgulhosa, vejam como está crescido o meu neto, como se crescer saudavelmente significasse ser terrivelmente grande ao ponto de lançar uma tonelada de ar antes de se levantar da cadeira. Acham que alguém chamou-a á atenção? Não, deixem lá o rapaz comer, é tão novo, e é á pala desse tipo de pensamento que hoje em dia existem crianças com diabetes. Claro que a senhora ficou muito aborrecida quando um dia o médico recomendou uma dieta ao neto, mas teve que o fazer pois o neto estava na iminência de ficar com problemas de saúde muito graves ao continuar por esse caminho.

Quanto a mim, fui vitima de uma espécie de bullying familiar desde muito nova, as pessoas não se envergonham, mesmo aquela tia hipócrita que tem que colocar uma banda gástrica vai dizer: ” a menina está tão magrinha, tem que engordar”, e essa tia sabe que comes de forma saudável e o suficiente, mas a palavra suficiente não existe no dicionário gastronómico do tuga, é comer até ficar com azia e foi com essa pressão que eu acabei por arranjar vários problemas ao longo destes anos. Ainda lembro-me da Cátia, a minha mãe pagava á Cátia que era testemunha de Jeová e obrigava-me a ler a bíblia, algum dinheiro para ela ficar comigo e com a minha irmã, uma vez serviram-me um prato enorme de feijoada, enorme, e era feijoada, eu tinha uns 12 anos e sabia que nao iria conseguir terminar aquele prato, aquela família era muito cruel comigo desde muito cedo e por isso comecei logo a chorar quando vi o prato, completamente desesperada e a meditar sobre o que poderia fazer para conseguir passar por aquele prato, escusado será dizer que me obrigaram a comer tudo e passei o resto da tarde a vomitar. Nunca mais me esqueci disto porque foi uma tarde horrível, vomitei, bebi imensa agua e adormeci, quando os meus pais chegaram notaram que tinha os olhos vermelhos e estava pálida, e eu perguntei-me se a comida tinha que ser uma tortura, se o meu estomago era anormal e as pessoas tinham razão.

Com o passar dos anos fui percebendo que sempre fui uma pessoa normal, fui percebendo alias, que na verdade, eu sempre gostei mais de comida do que as pessoas pensavam que gostavam, pois eu dedicava tardes inteiras a ler livros de nutrição e a aplicar isso nos meus cozinhados, eu tinha um gosto incrível em cozinhar de forma saudável, cada garfada era feita sem culpas, com a certeza de que estava a comer de forma preventiva e saudável e que um pacote de batatas fritas não era assim tão bom quando provavelmente sabotariam o meu corpo e saúde.

Comecei a praticar desporto mais afincadamente e as pessoas admiravam o meu corpo e a minha forma, mas eu perdi esse gosto em cuidar de mim mesma de repente quando entrei num relacionamento abusivo, onde era obrigada a ingerir álcool, a comer imenso e claro, o desporto tinha ficado para trás, foi um episodio triste da minha vida mas quando consegui sobreviver e sair desse tipo de vida percebi que tinha perdido algo em mim, e tinha sido esse gosto em viver de forma saudável.

As coisas ficam mais fáceis quando percebemos que precisamos de ajuda.

Nunca tive tendência a ficar gorda ou sequer com barriga, mas o meu corpo queixou-se, a celulite, a minha forma, o meu estômago atravessava gastrites constantes, comia até vomitar, basicamente, era capaz de me levantar ás 4 da manhã para comer uma embalagem de gelados, a minha pele pipocou de borbulhas, claro que o meu sono, o meu humor e a minha qualidade de vida caíram a pique e só me ocorria perguntar se era isto que as pessoas queriam com anos de pressão para comer como uma louca e engordar. Fiquei chateada, revoltada, porque percebi que tinha sucumbido a anos de pressão, e esta seria a Daisy aceite socialmente, por incrível que pareça, a pessoa que tinha o apetite completamente descontrolado. Não sou muito de chorar sobre as barbaridades que já tinha feito ao meu corpo, comecei antes a planear o que posso fazer para voltar a ser a Daisy de antes, com mais energia, mais gosto pela comida e menos apetite.

Só gostava que pais e avós deste país parassem de incentivar crianças a ficar obesas e com problemas que antes só atacavam as pessoas da terceira idade, acho que as pessoas nem com elas mesmas são boas, mas quanto aos outros, deixem os outros em paz.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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