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Imposições sociais

Imposições sociais, já começando pelo fim, ás quais eu não obedeço, e assim há quem diga “oh, é só para ser do contra”, não, é mesmo para ser feliz.

Para além das mais óbvias que todos já conhecemos, sobretudo nós mulheres, existem aquelas que são um pouco menos faladas mas ainda assim, como todas as imposições, são hipócritas e fazem-nos perder tempo. Uma delas é o facto de todos exigirem e se assim não for sermos rotulados como alienígenas, todos exigirem que tenhamos um vasto circulo social, um conjunto de relações de conveniência a que ninguém chama relações de conveniência, chamam-lhes amizades, como se se encontrasse um amigo em qualquer dobrar de esquina, como se vivêssemos no mundo da Alice no País das Maravilhas e toda a gente fizesse parte da nossa história encantada, que bonito…

Não é tão bonito quando enganadas por uma imposição social as pessoas acabam por acreditar nas mentiras que inventam e caem redondamente no chão quando alguém lhes falha, como se a Rita, só porque foi ao jantar de aniversário do João, fosse a melhor amiga e confidente do mesmo. Quando o João percebe que a Rita para além de amiga colorida no país das maravilhas é colega, e por isso, quer progredir na carreira e está-se a borrifar para a carreira dele, ele cai no chão, chora, desespera, chateia-se, enquanto a única coisa que a Rita está a fazer é a pensar no seu futuro.

Não estou a dizer que não existem amizades, só estou a dizer que acho ridículo que algumas pessoas de facto acreditem que tem milhões de amigos verdadeiros, respeito, mas acho ridículo, e como tal, pelo respeito que tenho, fico chateada quando lembro-me de certos episódios da minha vida em que fui rotulada de alienígena só porque o meu objectivo era trabalhar e estudar e não ser a falhada mais popular do momento. Claro que é possível ter uma boa carreira e muitos conhecidos, nem digo amigos como todos dizem porque não consigo, mas é mais difícil, andas mais cansada, distrais-te mais e tens menos tempo de qualidade para ti, para ler um bom livro, passar um exfoliante, ir a uma sauna, fazer meditação ou dar umas boas gargalhadas com os teus cães e namorado.

Reduzir o meu circulo social foi fazendo parte do meu crescimento como pessoa, nunca fui super popular mas já houve uma fase em que toda a gente gostava de mim, porque dizia que sim a tudo, estava em todas as saídas á noite e idas ao cinema, nunca dizia o que me vinha á cabeça e era sempre super querida quando isso estava a consumir-me por dentro. Foi na realidade agora que percebo uma questão de auto estima, percebi que não eram os outros que tinham que me aceitar como eu era mas sim eu. As piores fases da minha vida foram vividas na minha adolescência e isso não significa que tenha sido quando tive os maiores problemas, significa que vivi na sombra dos outros e isso deixava-me profundamente infeliz, não tinha coragem de ser eu e a pior coisa que podes fazer a ti própria, a mais desgastante, cansativa, deprimente e sabotadora, é deixares de viver para agradar aos outros.

Não consigo admirar aquelas pessoas que mantêm amizades desde o ensino secundário até á vida adulta, é muito raro que essas pessoas venham a ter o mesmo ritmo de amadurecimento que nós, seguimos caminhos diferentes, carreiras diferentes, a maioria das minhas ex colegas de secundário é agora mãe, e isso já diz tudo, mas mesmo na altura do ensino secundário dava graças aos céus por ter trabalho pois socializava melhor com pessoas mais velhas, não estou com isto a dizer que estava mais evoluída, não sei, talvez devesse ter vivido mais as besteiras das minhas colegas, andarem a chorar baba e ranho por rapazes, humilharem-se por eles, voltarem, acabarem, voltarem, acabarem, chatearem-se com amigas, com os pais, e pum, temos uma vida de morangos com açucar.

Quando acabei de estudar, coisa que nunca aconteceu pois até aos dias de hoje invisto na minha formação, foi um alivio pois a minha vida desdramatizou e pude sentir um pouco da minha liberdade, um ordenado mínimo não chega para sermos livres mas quando pagamos as nossas contas não há ninguém que nos possa ditar coisa nenhuma, pelo menos no meu caso.

Comecei a namorar, exato, eu sou essa alienígena, não comecei a namorar no secundário, tive um crush por anos que depois até foi o meu melhor amigo, o meu ultimo melhor amigo, mas fora isso nada de namoros, até começar a trabalhar e sentir-me dona do meu nariz, com uma auto estima que ia daqui ao céu e super feliz porque tinha saido do inferno que era a casa dos meus pais, foi o Igor até que me ajudou a fazer as mudanças. Mas continuando, como vos estava a contar, comecei a namorar com o Ivan, trabalhava no mesmo centro comercial que eu a tirar cafés, nessa altura as minhas hormonas decidiram aprontar por isso ignorei completamente tudo o resto, limitei-me a julgar que estava loucamente apaixonada por um mulato com 1.80, todo musculado e com um brinquinho na orelha, não sei, ele fazia-me lembrar os clipes de música dos 80’s e isso de alguma forma dava-me tesão, típico de uma miuda inexperiente confundir tesão com amor!

O Ivan deve ter-se sentido estranho, porque enquanto os machinhos no centro comercial sussurravam que eu não tinha pedalada para o aguentar só por eu ser terrivelmente magrinha nessa altura eu suportava-o só por mais um dia a dizer coisas estapafúrdias para que ele viesse dormir lá a casa, de repente dei-me conta que a miúda inocente que eu pensava que era estava a usar o Ivan só para sexo, e senti-me bem já que ele ficava calado enquanto os amiguinhos dele faziam piadas sobre ele ter conseguido “comer” a miúda branca magrinha acanhada, porque é que eu não poderia usufruir de sexo como qualquer homem faz? Nunca fui dona de um desses egos ridículos, inflados que fariam outras pessoas cair no chão e ficar com uma autoestima de merda, eu tirei vantagem daquilo que as pessoas diziam de mim. É exatamente isso, julguem-me a mim e não ao machismo que existiu em toda esta questão.

Quando acabámos já sabia que isso ia acontecer semanas antes, acho que na realidade, a nossa relação idílica sem chatices deve ter durado uma semana, porque depois disso ele começou com merdas, a primeira foi achar que tinha o direito de alterar as minhas rotinas, ía beber café com o Igor quase todos os dias depois do trabalho e de repente achava que eu tinha uma etiqueta com o nome dele e podia decidir que eu não sairia mais com homens. Claro que continuei a sair com o Igor, ele ficou aborrecido mas resmungava e calava-se, depois foi a conversa que é o mote deste post, perguntava-me porque é que eu não tinha 30 mil conhecidos como ele e eu limitava-me a responder que não fazia parte dos meus objetivos de vida ser a socialite da margem sul, e que por isso, ele tinha que respeitar as diferenças, mas o derradeiro momento, aquele em que quase tive um AVC foi quando eu com 23 anos ouvi a conversa dos filhos, incrédula e completamente apanhada de surpresa de repente tive vontade de ir vomitar na casa de banho, literalmente, talvez tenha sido aí que tenha percebido que esperava-me um longo caminho de relacionamentos falhados graças ao facto de eu não querer filhos. Anyway, se se quiserem rir, nessa noite, discutimos, fizemos sexo a noite toda e no dia seguinte acabámos. Pelo menos estava plenamente satisfeita no dia a seguir porque definitivamente uma coisa ele sabia fazer bem.

De ano para ano o meu circulo de amigos foi-se reduzindo, á uns tempos atrás o Bruno andava-me sempre a perguntar o que é que ele tinha de errado já que estava a perder o contacto com todos os amigos dele, e chegámos á conclusão que ele tinha crescido e tinha decidido um rumo bastante diferente deles, isso não deveria fazer com que as pessoas se afastassem se as amizades fossem assim tão importantes mas fez porque vivemos numa sociedade que não aceita diferenças. Vamos mantendo os mais importantes, os que nos fazem bem e respeitam e os que se vão afastando fazem parte de uma seleção natural da qual a vida se incumbe, entretanto chegámos os dois juntos á conclusão, porque somos diferentes mas nos amamos, que algumas pessoas têm essa necessidade de manter um circulo social de conhecidos com quem possam de vez em quando beber uma cerveja, mesmo que não seja um amigo, trocar meia dúzia de palavras com um conhecido do trabalho, o Bruno é essa pessoa eu já sou o oposto, e por isso, ele respeita o facto de eu ser mais desconfiada, mais caseira e super devotada á nossa vida de casal e cães, enquanto ele precisa de mais variedade, por isso é que ele sai para o café com os amigos e eu não me importo nada de ficar sozinha de vez em quando a improvisar uma sessão de spa em casa. São poucas as amizades que tenho mas as que tenho são sinceras.

Conversas de conveniência, mentiras e sessões boémias de coisíssima nenhuma nunca foram o meu feitio, porque para mim tudo na vida que é em excesso é demais, e para mim as pessoas são demasiado boémias e pouco introspectivas, existe uma preguiça geral em reflectir, em pensar sobre as nossas vidas, planeá-las, as pessoas vivem numa cegueira social e impõem que sejamos iguais porque não lidam bem com o facto de que alguém lhes possa tirar essa cegueira.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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