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Presente inesperado

Os projetos do novo ano trouxeram muita luz para mim, coisas que eu nunca esperaria que pudessem acontecer em mim, aconteceram. Mas acho que esse é o processo normal de uma pessoa viciada em pensar, em meditar, filosofar, não me querendo armar em superior, são coisas bem raras hoje em dia não é, pensar, as pessoas têm medo de pensar e de com esse pensamento chegar a uma verdade demasiado cruel, então preferem manter-se na ignorância e continuar abestalhadas nas suas vidas.

Sabem, á uns dias dei por mim a pensar, o que aconteceu comigo?

O que aconteceu com aquela menina jovem que dizia enquanto olhava no espelho: “eu vou conseguir” e conseguia tudo o que queria? Porra, eu tinha que lidar com as neuroses da minha família mas ainda conseguia pensar em saúde, em exercício, trabalho, estudar. O que aconteceu aquela pessoa tão minuciosa, cuidada e forte que eu era? Parece que de á uns anos para cá tudo tinha vindo a perder o gosto na minha vida sabem, mas eu sabia que essas paixões só estavam meio subterradas e eu só não sabia como trazê-las á tona novamente, o que é um ser humano sem paixões? Só eu sei o tamanho dos meus sonhos e o quanto eles me moverão até hoje, mas a vida é uma merda, e lentamente nesta esperança de vida de 80 anos que nós temos, ela vai tentando corroer as nossas entranhas e as nossas forças tentando que nós não nos apercebamos.

Comigo tudo começou quando eu entrei no mercado de trabalho, bem, eu já me adorava maquiar e vestir bem com 16 anos, eu só não tinha dinheiro para isso, mas eu fazia o melhor que podia com o que tinha, até que comecei a trabalhar numa marca bem conhecida e que paga muito mal e disseram-me que eu teria sempre que vir maquiada, então, de início até nem me incomodou, mas quando ao fim de 16 anos no mercado de trabalho os meus empregadores continuavam a dizer-me que eu tinha que obrigatoriamente ir com maquiagem para o trabalho eu já estava saturada, cansada, chateada com as exigências ridículas que fazem a nós mulheres, sem querer, o mercado de trabalho fez com que eu parasse de tentar aprender sobre a área, a maquiagem já não era um prazer para mim, uma descoberta, era só um artificio para os clientes comprarem em x marca só porque eu parecia bonitinha, ainda que o negócio onde eu estivesse não tivesse nem um pouco que ver com maquiagem. Sempre nos venderam a nós mulheres não é? De todas as formas possíveis e imagináveis, já repararam que os homens não são tão usados na indústria da moda e da beleza? Nós somos usadas e cuspidas fora quando perdemos o interesse. Não interessa nem que trabalhemos na reposição de um supermercado, vamos ter que estar bonitas só para que muitas vezes homens nojentos e sexistas possam se babar no supermercado, chegar a casa, assistir um pouco de pornografia e ainda vamos ter que levar com a presença eles no dia seguinte porque sentem que como nós somos propriedade de empresas podres e retrógadas podem descarregar todas as imundícies que lhes vêm na alma porque o cliente tem sempre razão. Assim, eu fui perdendo o gosto em estar bonita, bem arranjada, até um dia ter-me despedido e ter decidido que iria ser dona do meu próprio nariz mesmo que isso representasse algumas dificuldades e dores de cabeça.

O instagram e o facebook, em certa dose, tornaram-se um veneno para mim, á 5 anos eu estava na minha melhor forma de sempre, e nossa, eu conseguia trabalhar em full time com apenas uma folga, fazer ginásio todos os dias, arranjar o cabelo, as unhas, tudo, absolutamente tudo em dia no que tocava á beleza, eu estava tão feliz que as pessoas comentavam o meu sorriso aberto e sincero sempre que eu entrava no ginásio, mas de repente, eu entrei tanto no mercado fitness que o estar em forma passou a ser uma obrigação, no instagram aqui a burra começou a seguir “divas fitness” com poções milagrosas e que nos fazem sempre sentir péssimas, por melhor que estejamos perto delas, estaremos sempre mal, porque o instagram é cheio de filtros, photoshop, facetune e todas essas coisas, eu sei, eu aprendi com uma influenciadora a usar essas ferramentas, eu aprendi como manipular photoshop no meu curso de artes, e aqui estou eu a admitir que fui enganada pelo instagram juntamente com os compadres do costume, photoshop e filtrinho fake de vida cor de rosa. Deixava-me completamente frustrada o facto de que sempre que eu queria falar de coisas reais, ninguém queria saber. As pessoas que me enchiam de likes se eu postasse uma foto de vestido ignoravam-me completamente se eu contasse um episódio menos feliz da minha vida através de uma foto, e eu que sempre me encantei pelo real, pelo palpável, sempre tive alguma dificuldade em entender porque é que o real não atrai as pessoas.

A depressão foi-se instalando como uma doença bem silenciosa, bem traiçoeira, eu ignorei os pequenos sinais e segui a minha vida com a sensação de que eles começavam a prejudicar-me cada dia mais, mas como tudo o que se instala devagar, quando nos percebemos da sua presença já estamos habituados a ela. É aí que começo a tentar perceber o que se passa comigo, porque me sinto triste, porque não quero levantar-me da cama quando nunca tive problemas em madrugar, porque é que me custa tanto sair á rua quando eu sempre gostei de sentir o sol nos meus ombros?

A metáfora certa é como um anti-virus que acelera o computador onde trabalho todos os dias, eu precisei de fazer um check á minha vida também, limpar registos, planear, organizar, apagar. Apaguei tudo o que me trazia alguma carga negativa diariamente, todos os medos que eu tinha desapareceram juntamente com algumas pessoas que mandei passear por eu nunca ter sido boa o suficientemente para elas, em outras, por mais que doesse, aceitei o adeus, aceitei que nao havia soluçao e que talvez fosse melhor assim, consultei um psicólogo, o que me fez com que dentro do meu corpo de repente começasse a surgir um equilibrio maior, tudo recorrendo a substâncias não nocivas para o meu organismo claro, e por fim, já tinha virado o ano quando ao ler um post de uma influencer que sigo ás muitos anos senti-me ofendida, ela dizia “como vestirem-se bem para um jantar”, o bem ali para mim fez toda a diferença, o bem ou o “devem”, como devem-se vestir para x ocasião, “como devem maquiar-se para disfarçar as imperfeições”… Enfim, todo um rol de frases com regras, regras impostas subentendidas que eu nunca tinha entendido, era assim que eu tinha que me vestir para ser aceite socialmente? Mas porquê se eu nem gostava do vestido? Mas porque é que eu não podia gostar de algo mais simples? Porque é que aquela rapariga que eu nem conhecia de lado nenhum tinha tantos milhares de seguidores que permitiam que ela lhes ditasse tantas imposições sociais? Quando é que o instagram começou a destruir as nossas paixões?

Pela primeira vez não tive qualquer vontade de tirar fotografias e publicá-las no instagram, pela primeira vez tive uma vontade enorme de o apagar, mas confesso que não o fiz pois pode dar-me jeito para o trabalho, pois não são poucos os seguidores que lá tenho, em alternativa apaguei a minha conta de facebook e desinstalei o instagram, é rídiculo como algo tão simples trouxe-me uma leveza tão grande.

Eu gosto de pessoas com vidas reais, palpáveis, e a mim pouco me interessa se as pessoas são imperfeitas fora do instagram se não o querem mostrar ao mundo, no fundo parece tudo uma triste competição para ver quem é mais feliz, onde na verdade ninguém é, todos tentam ser. É disso que eu gosto na escrita, da realidade, da sinceridade que eu posso aqui deixar impressa sem precisar de estar toda arranjada e da ausência de máscaras quando escrevo. Senti muito ódio o ano passado, verdade, não me arrependo pois sinto que foi legítimo, precisei de o sentir pois o mesmo guiou muitas decisões na minha vida, fui criticada por isso, já não há espaço para sermos sinceros, felizes, genuínos, temos que todos ser cobaias de umas regrazinhas de etiqueta inventadas por um zé ninguém, mas o que interessa é que este ano toda a minha energia é amor, sonhos e paixões, sonhos antigos recuperados. Não sei se volto para o instagram mas uma coisa é certa, nunca mais vou ter o vicio de consultar uma uma rede social de 5 em 5 minutos só por que sim, nunca mais vou deixar que a ansiedade consuma os meus dias.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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