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Nem tudo são cunhas

Há quem fique terrivelmente chocado quando percebe que não é mais do que ninguém, quando pela primeira vez numa vida de falcatruas, de cunhas, de amizades por conveniência e trinta mil coisas que fizeram com que essa pessoa triunfasse na vida (de forma desonesta mas sim), quando pela primeira vez um ser humano com os direitos valorizados é de facto valorizado pelo seu trabalho há sempre um outro que viveu de cunhas que fica muito chateado e revoltado com a situação, como se estivesse em pleno direito de ficar zangado, como se a vida não fosse já injusta o suficiente o tio cunhas amua, zanga-se, grita, chora e esperneia, faz um escabeche, porque finalmente alguém que trabalha realmente, dia por dia, sem se queixar, cumprindo tudo, sem atrasos, sem choraminguices, finalmente esse alguém é recompensado, porque existe um chefe ou um gerente ou um superior qualquer que viu o esforço e não a cunha, porque pessoas inteligentes e que têm empresas nas suas mãos querem pessoas trabalhadoras e não divas cheias de vícios e esquemas para conseguir subir de posto.

Faz-me lembrar quando trabalhei em supermercado, tudo parecia normal no inicio mas com 30 anos já pouco ou nada surpreendia-me no mundo laboral, no início parece sempre tudo bem, os teus colegas, os bons e sobretudo os maus, apalpam terreno, tiram-te a pinta, tentam perceber se és um lobo ou um cordeiro para ver se futuramente hão de se juntar a ti ou atacar-te, o que de facto é sim uma estupidez pegada porque o lobo é quase sempre o chefe que herdou a empresa dos paizinhos ricos e que nunca trabalhou um único dia da vida dele, o chefe que se regozija com a selvajaria que chega a ser infantil dentro de muitas empresas porque é uma forma de o chefe sair sempre ileso e os bons funcionários saírem loucos de uma situação onde se vive um dia de cada vez, ou melhor, sobrevive-se, um dia de cada vez. Atacam-se uns aos outros sem perceber que é esse tipo de atitudes que os atira para a pobreza sem fim á vista, enquanto o governo finge subir o ordenado mínimo mas vai buscar sempre o dinheiro a outro lado qualquer, selvagens ficam contentes e deixam-se iludir, pensar dá trabalho, que se dirá trabalhar então…

Dentro das cunhas a que mais me enojou foi a da “Julia”, com 2 filhos feitos, marido, sempre a lamber as botas dos donos e sempre de sorrisos para o gerente, um dia apanhei-os aos apalpões, o mesmo gerente que olhava-me de lado quando via-me com a minha roupa casual e dizia que mulheres não eram feitas para usar tatuagens e roupas curtas, o engraçado é que criticava, mas olhava. Eu podia usar roupas curtas mas nunca tinha-me despido para conseguir subir um ordenado, ou como disse o valete, nunca tinha descido uma cueca para subir de estatuto, e o que me enojava é que esses dois que se comiam entre corredores eram os mais politicamente correctos, os que mais julgavam os outros, os que se achavam perfeitos mas no fundo eram os mais promíscuos e com telhados mais frágeis.

A cunha funciona sempre de duas maneiras, ou desce-se uma cueca, sobe-se a saia, toca-se aqui e ali ou fulano cicrano conhece a Ana desde pequena e põe a Ana numa entrevista só para fazer de conta, entretanto chama outras candidatas que nem imaginam que estão ali a perder tempo porque quem fica é a Ana, a Ana faz-se de muito surpresa quando comunicam que fica com a vaga e vem logo para o novo emprego com altivez e postura de quem manda. As regras passam ao lado da Ana, ela vai á casa de banho as vezes que quiser enquanto as colegas ganham infecções urinárias, ela sai mais cedo, chega atrasada, tira longas horas de almoço mas está sempre de olho nas outras colegas só para conquistar a confiança do ex amigo ou flirt de infância que agora é patrão, a Ana está-se pouco borrifando para o facto de que as colegas estão ali á 20 anos e que ela em contraste nunca estalou o verniz para lavar um prato, ela quer passar por cima dos outros, tanto lhe faz que a Sónia tenha uma depressão ou o Jorge tenha uma filha pequena para sustentar, o que interessa é o próprio umbigo, não é novidade que o próprio sempre foi o centro de todo o universo.

Mas sabem não faz mal, foi graças ás “Anas” desta vida que eu desisti de trabalhar por conta de outrem, não me custa nada ter relações com um homem que até achasse atraente assim, sem compromisso, mas se esse homem fosse o meu chefe a minha consciência (algumas pessoas têm, as Anas desta vida não) a minha consciência jamais me permitiria voltar ao trabalho como se nada tivesse acontecido e se existe algo que eu sempre respeitei imenso foi o meu sustento e a minha carreira, também seria igualmente incapaz de chegar ao meu local de trabalho com o nariz empinado só porque o chefe tinha tido sexo comigo, mais do que o acto em si, acho isso absolutamente nojento, o acto de teres sexo com alguém só porque precisas de uma promoção. No caso do chefe tudo bem, ele deixou-se enganar, está bem na vida, deixem-no estar a desfazer a bola de neve que criou mas e as outras pessoas que se dedicam inteiramente a uma profissão que pensam que um dia as levará a algum lado? Então e essas pessoas?! Trabalhar para uma empresa é confiar, é dedicar tempo e acreditar que seremos tratados com o devido respeito e dignidade. Já convivi com muitas “Anas”, a maioria sentia-se ameaçada por mim, como se o facto de eu ser considerada atraente significava que como a Ana não teria carácter: Ana, nem todas são como tu. Mas é lógico que um dia aparece uma Luísa porque mulheres bonitas no mundo não faltam, e o chefe esquece-se da Ana num estalar de dedos.

Sem que a Ana perceba de repente o que tem por entre as pernas deixa de ser a arma de arremesso e passa para o plano dos funcionários humanizados, os que trabalham, produzem, esforçam-se e vão para casa, quando chega a altura de planear as férias e a Ana percebe que não tem mais exclusividade que os outros desata a gritar e a chorar, enquanto que aqueles que sempre estiveram na sombra de quem doa sexo para ter benefícios calam-se e ouvem o escândalo humilhante e medíocre de uma mulher que precisa respeitar-se mais a si própria e sobretudo aos outros, a Leonor que está na empresa á 20 anos finalmente vai ter umas férias em Agosto, o Paulo finalmente vai ter horários rotativos e deixar de fazer aqueles horários que não dão jeito a ninguém mas que ele tem que aceitar porque decidiram que o Paulo era o elo mais fraco, eu observo a situação de longe abano a cabeça, fico surpresa com a falta de carácter das “Anas” desta vida, ter mais direitos que os outros sempre foi um privilégio da Ana, agora ela precisa perceber o que é o outro lado da moeda.

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Simples, sonhadora, trabalhadora, feliz, prática, cética, agnóstica, livre, pensadora, escritora, politicamente incorrecta.

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