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Adeus redes sociais

Os meus sonhos têm habitado todos os meus dias, porque nunca lutei tanto por eles como agora, ando um bocado desligada de tudo o que antes fazia com que perdesse tanto tempo, porque simplesmente agora perder tempo não faz parte do meu vocabulário. Por exemplo? Ontem bebi um café intragável e hoje passei o dia a v*mitar, se acham que estava frustrada por estar levemente doente enganam-se, cada vez que sentava-me na cadeira do estúdio para trabalhar lá vinha outra cólica insuportável e lá tinha que me encafuar na casa de banho. Desculpem, sei que não é a coisa mais agradável do mundo para se contar mas foi um facto bem presente no dia de hoje, e quando finalmente o meu estômago deu-me alguma paz parecia que estava eternidades sem comer o que me levou a ir ás compras e a comprar qualquer coisa que me tirasse daquele estado zombie.

Lá enfiei a minha refeição do lixo goela abaixo quando de repente senti uma tonelada de sono e cai desmaiada no sofá, não se assustem, desmaiada serve só para resumir o meu estado grave de sono. Acordei 30 minutos depois completamente grogue e lá consegui trabalhar sempre a enfiar litros de água goela abaixo e sempre a meio gás, mas consegui.

Quando o Bruno chegou a casa quis apimentar o meu dia, um pouco, retirar qualquer coisa de bom, tivemos relações mas estava tão grogue que precisava de um estalo, então no estúdio tive a mesma abordagem intima mas apenas de mim para mim, adormeci mais meia hora, encafuei mais qualquer coisa estômago abaixo com medo de desmaiar pois pouco ou nada comi hoje e voltei ao trabalho. Entretanto já é 1h da manhã mas não consigo descansar de consciência pesada por isso nem que fique de direta hoje termino o que tenho para fazer, mas bem, não foi nada disso que me assustou.

Parei um pouco porque a Isabel, francamente acho que é a única pessoa do Porto de quem tenho saudades, reparou que fiz like em muitas fotos dela e comentou uma foto onde o Bruno fez-me uma pequena dedicatória, falou da inveja por trás de mulheres empoderadas e comecei a pensar nas coisas que temos em comum e que sempre nos uniram, deambulei um pouco por esses pensamentos e dei por mim a pensar que de facto a inveja foi uma constante na minha vida que me prejudicou por muito tempo, a inveja, o desdém, a soberba, o complexo de inferioridade, aquele mal querer descabido… Já há dois dias tinha percebido que algumas pessoas que sempre quiseram ver-me pelas costas estavam sempre em cima do que punha nos stories do meu instagram, (o meu instagram estava publico e qualquer pessoa podia ver), voltei para o meu instagram convencida que de facto as pessoas que nos desprezam são no fundo as que mais cobiçam quem somos e como vivemos a vida, dei um check mais atento ás minhas histórias e não quis acreditar no que vi, incrédula decidi ver história por história porque pensei que provavelmente seriam apenas infelizes coincidências, mas não, ali estavam as pessoas com quem em algum momento tinha tido algum tipo de conflito no passado, conflito mal resolvido diga-se de passagem. Tirei prints para o Bruno ver e comentei com ele completamente surpresa com o que tinha acabado de perceber, não havia um story que não tivesse a visualização de todas aquelas pessoas que por razões diferentes tinham decidido não gostar de mim.

Sim, eu sou uma pessoa que tem certa facilidade em criar “inimizades” e escrevo entre aspas porque na verdade nunca fiz mal a nenhuma dessas pessoas, mas como sou diferente, muitas pessoas acabam por não gostar. Se acham que digo isto porque tenho para mim que sou a ultima bolacha do pacote estão certos, mas nem sempre foi assim, nem sempre foi fácil ser a carta que não pertencia ao baralho, nem sempre aceitei que era diferente dos outros, tentei anular-me, modificar-me para agradar aos outros, deprimi, chorei e percebi que a minha essência nunca mudaria e que estava apenas a atraiçoar quem eu era. Depois, com o tempo, também percebi, não que a sociedade tenha-me dito isso, eu precisei de perceber sozinha, que ser diferente não tem nada de mal, antes pelo contrário.

Percebi que a paixão e o sonho que eu tinha em viver rodeada de animais era legítimo e que muitas pessoas com um coração bom sentiam-se empáticas com a causa animal, então comecei a atrair essas pessoas para a minha vida e não as que não gostavam e desprezavam animais.

Percebi que eu tinha o direito a escolher não ter filhos, que por ser mulher não era destinada pura e exclusivamente á maternidade, que eu era mais do que um útero, mais do que um sistema reprodutor, mais do que uma mãe e que se eu deixasse de encontrar um parceiro para a minha vida por causa disso, era porque não tinha que acontecer.

Percebi que não ia mais atrasar a minha decisão de ser vegan só por causa do que os outros iriam pensar ou dos argumentos que ainda não tinha prontos na ponta da língua (hoje já tenho) porque ninguém domina completamente o que quer que seja antes de colocar na prática e ver como funciona.

Percebi que eu não tinha que ser uma pessoa extrovertida só para agradar aos outros, que não tinha que adorar ser popular e desejar ter muitos conhecidos á minha volta, eu sempre fui mais uma pessoa de ler, de ir á praia e passear com os cães, de ir ao cinema sozinha e fazer compras sem pedir opiniões de ninguém porque eu sei precisamente o que me assenta bem ou não, eu não precisava de sorrir ás pessoas e de estar lá para conversar com elas só porque queria ser educada e queria agradar, percebi que eu sou uma pessoa bem solitária e sempre de sorriso no rosto e que está tudo bem mesmo assim, porque cada um é feliz de uma maneira diferente.

Percebi que “família” é um rótulo que nos prende e nos faz mascarar relações tóxicas onde não existe amizade e que por isso, não tem nada de errado cortar relações que nos trazem dissabores.

Percebi que eu sou uma pessoa bem crítica, bem observadora e que precisa de se exprimir pela escrita, todos temos formas de extravasar, uns meditam, outros cantam, outros vão correr, outros escrevem, e está tudo certo. Também não tem nada de mal termos a rebeldia e a crítica na ponta da língua para realidades sociais, para grandes mudanças, isso significa que estamos atentos, que queremos um lugar melhor e que não cruzamos os braços. Isso significa que temos um espírito jovem e não aceitamos um encolher de ombros como resposta.

Percebi que eu sou uma pessoa genuinamente revoltada com tudo o que me aconteceu, que os abusos, o machismo, a discriminação, o bullying, o assédio, a violência, o álcool, o stalking e a impunidade marcaram a minha vida para todo um sempre, hoje em dia, no bom sentido digo, as cicatrizes estão saradas, curam mas não se esquecem, entendem? Quem pode julgar-me se eu fico chateada por ver uma mulher ser assediada e sair de uma situação do género sem qualquer defesa ou mudança na sociedade? Eu passei pelo mesmo e gostaria que alguém tivesse ficado tão chateado quando aconteceu comigo, vivemos num lugar onde as pessoas não podem ser intensas, sentir, viver, respirar e gritar sem politiquices de se ser correcto, vivemos num mundo onde são todos extrovertidos para beber uns copos mas para defender os próprios direitos calam-se e tornam-se introvertidos.

Percebi que a minha sexualidade, a minha vontade, o meu desejo, a minha vontade de estar bonita, de ter experiências diferentes e incluir o homem da minha vida nelas não tinham nada de errado, que só nós é que temos que prestar contas da nossa vida íntima e que isso não fazia de mim a P*ta que Portugal carrega na ponta da língua para apelidar mulheres resolvidas, não submissas, não parideiras e sem apetência para lidas da casa.

Então, desculpem o testamento, foram esses 30 motivos e mais uns mil que levaram a tanta gente odiar-me tão fervorosamente, nunca impus a minha forma de vida a ninguém, mas as pessoas acham que têm o direito a ditar o que eu devo escrever, o que eu devo fotografar, o que devo gravar no youtube e não percebem que regras sociais inventadas para as pessoas serem infelizes comigo não funcionam, se eu quiser esborratar o meu eyeliner e andar com o cabelo desfeito isso é um problema meu e que só me afecta a mim. A liberdade sempre foi uma constante muito importante, determinante na minha vida, o bem mais precioso para que eu fosse feliz.

De entre essas pessoas que perderam a hipótese de algum dia sentar-se na mesma mesa comigo enquanto bebemos um café, existem umas histórias engraçadas, uma delas tentou afastar-me do Bruno, no auge das nossas vidas, foi a única que de facto surpreendeu-me, tanto que passei uma tarde inteira a chorar, nunca culpando-me por ter-me enganado no julgamento de valor, algo que hoje em dia raramente acontece comigo mas bem, todos falhamos, mas chorei de desilusão, de tristeza, de não ter respostas na ponta da língua á pergunta que teimava em surgir: “porque me queres ver infeliz?”, deixei que o meu corpo expulsasse toda a frustração e segui caminho, ciente de que quando alguém faz-me chorar não há mais nada a fazer. Uma outra foi apanhada em pleno ato de maledicência, tanto como calou-se assim que percebeu que não havia muito por onde justificar, como eu sou daquelas pessoas que acredita que o carácter de alguém dificilmente muda perdoei a primeira vez porque haviam terceiros envolvidos que não queria fazer sofrer, na verdade não perdoei, ficou engasgado e nunca mais voltou ao mesmo, por isso o problema tornou-se insustentável quando voltei a apanhá-la em flagrante, na verdade foi um alívio, senti-me mais leve ao cortar um laço que na verdade tinha sido um nó. Não vou alongar-me muito mais nestas histórias loucas, só queria que tivessem alguma noção do absurdo que é, que estas mesmas pessoas tenham tanto interesse sobre a minha vida quando bradaram aos céus o desprezo que sentiam por mim. É assustador saber que no fundo, talvez, se os nossos inimigos pudessem saberiam todas as mais pequenas coisas sobre a nossa vida para ter matéria para a crítica destrutiva, todas as coisas boas podem transformar-se facilmente em problemas quando distorcidas ao sabor de quem conta uma história, é fácil mudar uma história, dificil é mantê-la.

Assustei-me é um facto, porque não quero compartilhar a minha felicidade com quem não a aprecia, as minhas dores com quem as deseja em mim e os meus sonhos com quem os despreza, quero os meus projectos de vida, as minhas pequenas conquistas, aqui dentro do meu peito, quero que as pessoas que duvidaram de mim não vejam o meu brilho, a minha força, que sigam o caminho delas baseado nelas mesmas, nos próprios ideias, porque se não gostam assim tanto de mim precisam inspirar-se em outras pessoas, em outras vidas, porque quem não gosta de alguém é porque não tem interesse, quer distância, proteger-se e se alguém alega ter desprezo por nós e ainda assim quer bisbilhotar pelo buraco da fechadura, então existe alguma coisa muito errada com essa pessoa, só nos aproximamos do que desejamos, só bisbilhotamos o que desperta o nosso interesse, então, as pessoas não podem querer ter o direito a criar inimizades porque não aprovam quem somos e ao mesmo tempo aproximar-se e querer saber, fazer igual, isso é um certo veneno, um certo mau olhado, um mau querer que se tem, na verdade as pessoas que nos desprezam, muitas vezes queriam ser como nós, ter o que temos, construir o que construímos sem montar pedra sobre pedra, pulando etapas porque não têm a coragem que tivemos. As pessoas querem ter propriedade para falar dos nossos calos sem sujar as mãos, construir o tecto sem criar os alicerces, abrir feridas sem magoarem-se… A isso chama-se maldade, e ela existe, existem pessoas más diariamente a espreitar pelo buraco da porta da nossa casa.

Assim, só para terminar esta epifania gigante, resolvi colocar o meu instagram em modo privado, colocar uma placa de férias e dizer adeus aos curiosos, deixá-los sem assunto, fazer com que se compenetrem um pouco mais nas suas próprias vidas como na realidade deveria ser.

Acabei de escrever e são duas da manhã, sei que provavelmente ninguém lê mas sabe-me bem escrever e ter tudo aqui concentrado neste lugar bem decorado e confortável que é o meu blog, se alguém ler fico feliz, se ninguém ler também, amanhã releio e vejo erros mas fico feliz, não corrijo, não faço remendas, porque a minha vida é assim, os erros são meus, pode ler o texto quem quiser e achar-se no direito de corrigir a ortografia e até a moralidade, mas eu não vou corrigir e não vou alterar uma virgula, porque ao contrário do que dita a sociedade, nós não nascemos para sermos perfeitos mas também não nascemos para ser uma merda, nascemos para sermos bons seres humanos, reais.

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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