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Os filhos “experimentais”

Percebo que eu e o Bruno atraímo-nos um ao outro passados 5 anos, porque ambos temos um histórico, um mais severo do que o outro, de famílias desestruturadas, abusivas e tóxicas. Muitos de nós acredita que é normal quando um pai nos bate brutalmente com 20 anos, como se fosse normal que um surto de raiva se dirigisse para as pessoas que amamos, raiva, é isso que se deve sentir de um filho? Uma vontade incontrolável de agredi-lo, apertar-lhe o pescoço e gritar as coisas mais ridículas que estão escondidas no lado mais escuro, é isso que se sente por um filho?

O mais triste de tudo isto é que depois do erro cometido, depois de descarregar o que de mais negro existe nas suas cabeças, algumas pessoas pedem desculpa vezes sem conta, mas não explicam aos filhos que pais que amam não agem assim, não lhes convém dar a conhecer o que é que de facto significa ser um pai, porque não o são, por isso vomitam o pedido de desculpas e seguem vidas descansados porque o perdão chegou, embora não o merecessem.

O Bruno foi o primeiro, o filho experimental, e eu sei bem o que isso significa, significa que foi a cobaia para os experimentos seguintes, que serviu de teste e sofreu a primeira mão de todas as incongruências dos pais, erros que não foram cometidos com irmãos porque os pais já sabiam de primeira mão pelo Bruno que não era o mais correcto. O problema é que os filhos experimentais são cobaias a vida toda, caso contrário não se agredia um filho com 20 anos e que teve a decência de não retribuir a agressão de tanto carinho que tinha pelo pai. É isso que eu amo no Bruno, a capacidade dele de Amar e doar-se apesar de tudo isto, mas o que ele não percebe é que ás vezes não percebemos as causas dos nossos problemas mas elas estão bem aí, onde tudo começou, onde os abusos começaram.

Hoje em dia qualquer tuga pode ser pai embora eu seja da opinião que algumas pessoas não deveriam simplesmente ter o direito a ser pais pela incapacidade delas de sentir qualquer empatia humana ou de ter um QI por mínimo que fosse. Como a maior parte das pessoas são pais e atiram-se de cabeça sem perceber que da decisão delas virá uma pessoa acabam por cometer erros graves com os primeiros filhos, porque ao invés de se informar antes de tomar uma decisão tão importante, preferem marcar uma pessoa a vida toda e deixar que os outros filhos, os seguintes, as não cobaias, sejam pessoas normais e não traumatizadas. Sacrifica-se um filho em prol dos seguintes, e como todos temos dias maus e lados negros, descarrega-se na cobaia a vida toda todos os males com a desculpa de que ele sempre foi uma cobaia e não sabe viver de outra forma.

Por isso é que com quase 30 anos agora percebo a forma como o Bruno confia cegamente nas pessoas e deixa-se enganar, o Bruno deixou-se ser uma cobaia a vida toda porque alguém ensinou-lhe que era isso que ele era.

E são os pais, os supostos que nos preparam para a vida, a ser autossuficientes…

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Um dia fiquei sem voz, fui silenciada e a minha escrita deixou de existir. O blogue que escrevia desde os 9 anos, de forma anónima, desapareceu, porque alguém de repente achou que escrever era algo totalmente inútil. Deixei que alguém me dissesse o que eu não podia ser. Anos depois, em memória ao blogue de uma vida, ás histórias que definiam como eu sou como nenhumas outras, aqui está o mesmo nome, o mesmo registo, para mostrar que eu mudei e que eu sou eu, sou o que eu quiser, o que eu sonhar, livre. As palavras são uma linda forma de expressão e nunca devemos permitir que alguém silencie a nossa voz.

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