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Gosto do país, não gosto de tudo o resto

E é com o coração em pedaços porque cresci aqui, e é com o coração em pedaços porque vou ter que transferir os meus sonhos para outro país, para outro lugar, porque os sonhos cresceram tanto que não cabem num país que não sabe nem permite sonhar.

Saí de Angola com o cheiro, a cultura, os costumes enraizados em mim, o sorriso fácil das pessoas, o valor que dão ás mais pequenas coisas, quem é angolano ou conhece a cultura sabe que é assim, sabe que as pessoas doam-se e partilham, que vivem mais o momento e queixam-se menos, o mesmo acontece com o povo brasileiro, tive família no Brasil e digo tive, porque com a emigração e com os anos de luta perdemos todos contacto uns com os outros, e eu era demasiado pequena para lembrar-me agora.

E antes que me julguem por não me sentir portuguesa, imaginem, calcem os meus sapatos, imaginem-se na pele de quem não se sente mas tentou por quase 30 anos sentir-se um pouco que fosse portuguesa, e todas as tentativas saíram frustradas, imaginem como é sentirmo-nos alienígenas num mundo que é de todos mas onde alguns tomam posse, num mundo impregnado de diferenças mas onde quem for diferente não é de lugar nenhum nem dono de coisíssima nenhuma. Não me sinto portuguesa, não admiro o Ronaldo (nem á “beleza” nem ao futebol), não ligo a fado antigo (muito melancólico a grande maioria) nem pretendo ir a Fátima para punir-me de joelhos por ter tido um laivo de felicidade, e conforme o digo neste preciso momento chovem críticas, ofensas, desdém, e é por isso que não me sinto parte deste lugar, porque pertencemos onde nos sentimos bem, onde podemos sentir sem cair o carmo e a trindade.

E como não me sinto parte daqui, agora, de agora em diante, tudo o que faço é para que um dia possa sair daqui e ter a vida que sempre quis ter aqui e nunca pude. E um dia mais tarde vão acusar-me de usar o meu dinheiro lá fora, mas eu vou dizer-lhes que o meu coração sempre está lá fora, e se o dinheiro surgiu foi porque cada gota de suor foi a pensar no momento em que faria as minhas malas para ir-me embora. E como também não devo satisfações de coisíssima nenhuma a ninguém, vou-me embora, vou ser feliz, e julguem-me os que cá ficam por não querer uma vida mediana, banal, assim assim, eu sei que só tenho uma vida e que ninguém vai resgatar os meus sonhos caso eu não lute.

No dia em que sair de Portugal sei que vou chorar, porque foi aqui que esfolei os joelhos, caí, chorei, aprendi, mas foi também aqui que os meus pais foram tratados como lixo, que o meu irmão com autismo foi colocado de lado pela sociedade, foi aqui que fui vítima de abusos e fiquei anos á espera de uma carta se quer, uma carta que nunca chegou cá a casa, talvez se tenha extraviado em casos mais importantes, mais endinheirados, foi aqui que fecharam-me portas e não me deixaram estudar, foi aqui que demorei 20 anos para ter um diagnóstico de transtorno de ansiedade e é aqui que quero deixar todos os anos perdidos. Portugal será como uma página onde por vezes fui feliz mas onde tantas, mas tantas incontáveis fui infeliz, gritei e ninguém me ouviu, fará sempre parte da minha história mas um dia será uma página virada, e eu sou daquelas pessoas que nunca gostou de ler um livro mais do que uma vez.

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