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Problemas por resolver

Já acabei de chorar tudo o que tinha para fazer, quem leu o post anterior entenderá, entretanto um pouco triste voltei a pegar no computador para trabalhar, mas antes, quis resolver um problema antigo e que tem surgido desde que comecei a trabalhar por conta própria: falta de concentração.

E foi nesse tempo vazio a pensar no que poderia fazer que me lembrei da origem do meu problema…

Á uns valentes anos atrás os problemas familiares começaram lá por casa, os meus pais discutiam sem parar, motivos todos ridículos mas havia sempre um motivo, eu era uma miúda exemplar com boas notas e que se portava super bem, mas de repente, a minha alegria de viver, as boas notas, os meus amigos, a minha vida de criança normal começou-se a desmoronar. Lê-se num dos relatórios da escola que o meu pai guardou sem dar muita importância ” a Daisy está sempre sozinha no recreio, já não brinca com as outras crianças, isola-se, parece ter medo de tudo e de todos, muito desconfiada e um tanto agressiva, as notas estão a baixar e nas aulas distrai-se com muita facilidade”, lembro-me deste relatório como se fosse ontem, e quando o li, apesar de ter uns 8 anos, sabia que alguma coisa estava mal comigo.

Na cabeça da minha família, que de família tem pouco, eu era uma miúda mimada que fazia uma birra para chamar a atenção, e então esse relatório foi só mais um motivo para que o meu pai me sacudisse e atirasse contra a parede, eu sabia quando é que tudo aconteceria, esse episódio foi demasiado frequente na minha vida para que algum dia eu possa-me esquecer, o meu pai que outrora eu recebia em casa com felicidade enroscando os meus braços e pernas num pulo, nessa altura apenas fazia-me sentir medo, eu receava as chegadas dele todos os dias, e quando esses episódios aconteciam, tudo começava com os olhos dele mudarem completamente e encherem-se de ódio, e eu só pensava, “porque me odeias pai?o que é que eu fiz para isto?”, ele falava pausadamente mas com a voz vincada, pegava nos meus braços com tal força que as mãos dele ficavam marcadas por longas horas no meu corpo, e atirava-me contra a parede ou para o chão, e se por um acaso aquele fosse um dia mau ou existisse algum sinal em mim de que eu ainda lhe estava a fazer frente, ele tirava o cinto das calças e batia em mim.

Desculpem, já estou a chorar outra vez, mas é que percebi que isto ainda não passou, percebi que ainda dói e causou danos irreversíveis.

As pessoas de fora acreditavam no que os meus pais diziam: que eu era uma miúda mimada que queria tudo a maneira dela, e então, por incrível que pareça ninguém ligava que eu não fosse uma miúda normal, que deixou de brincar com as outras crianças e sorrir. Ninguém defendeu-me quando eu era criança, as faltas regulares á escola, os gritos no prédio, as marcas, nada acionou o serviço de proteção de menores e por isso até eu própria passava a acreditar que no fundo eu merecia tudo aquilo.

Aos 9 anos fui violada pelo amante da minha mãe, assim, eu não era como as miúdas de hoje em dia, eu via desenhos animados e fazia desenhos do Hugo no meu caderno de capa preta, e aquele homem oferecia-me peluches que eu nunca tinha tido e pedia para que eu sentasse-me no colo dele enquanto ficava ereto, isso acontecia bem á frente da minha mãe, aliás, caia uma pressão grande nos meus ombros porque a minha mãe pedia-me para não contar que aquele homem era o amante dela que ia lá a casa quando o meu pai estava a trabalhar, e eu, enchia-me de medo mas não contava nada, porque naquela altura eu já tinha levado tanta porrada, a dor já era tão rotineira na minha vida, que não me importava que isso acontecesse mais uma vez ou outra para proteger a minha mãe, sim, a mesma mãe que me tinha sujeitado a uma violação quando eu ainda era uma criança.

Os relatórios de déficit de atenção começaram quando os meus pesadelos e o xixi na cama viraram rotineiros, eu não conseguia dormir e sabia que sempre que acordasse o meu dia começava com o confronto do meu pai ao ver os meus lençóis, e isso durou até aos meus 15 anos, até eu começar a fazer frente ao meu pai e a perceber que tudo aquilo era errado.

Mas o déficit de atenção afetou-me toda a vida, toda a vida sempre tive a minha cabeça a mil, a concentração incrível e as notas fantásticas que eu tinha em miúda foram passado, aprendi a lidar com isso, tudo dependia do meu estado emocional, uma vez controlava mais outras menos, e para quem não sabe o que é lidar com isto é seres tão ansiosa, tão acelerada, que nunca consegues concentrar-te numa só tarefa. Torna-se impossível ter boas notas, seres bem sucedida no trabalho ou em qualquer área que exija foco porque estás sempre em modo de sobrevivência, como se eu nunca tivesse saído da situação em que cresci.

Hoje mal trabalhei, e fora o facto de sentir alguma culpa serviu para organizar-me, retirei os relógios do escritório e comecei a investigar, até que descobri o método pomodoro que se baseia em trabalhar produtivamente 25 minutos com pausas de 5 minutos, isso é controlado através de uma aplicação que está no google play que é gratuita, ao final de 4 repetições tiras uma pausa para comer algo ou beber um café e voltas ao trabalho. Também desinstalei o facebook, instagram, tiktok e tudo o que fossem redes sociais do telefone, quando quiser aceder vou fazê-lo pelo Surface, e pronto, parecia que o ar estava mais limpo e que me sentia mais leve.

Estou a torcer para que resulte caso contrário parece que preciso de uma psicóloga ou médica para ajudar-me a resolver isto de uma vez. Ainda doem os meus olhos de tanto que chorei hoje, da vontade gritante que tive de sair daqui já hoje, já, e deixar tudo aqui sem pensar duas vezes, começar tudo do zero com o Bruno e os pequenitos em outro lugar qualquer do mundo que não fosse aqui. Ainda não acredito que é assim algo tão impressionante que eu sinta que sou infeliz aqui em Portugal, parece que vivo num país perfeito e isto dito pelos próprios portugueses, parece que o facto de não aceitar ter uma vida miserável é mal aceite pelas pessoas, nunca me preocupei com o que os outros pensam, mas hoje, só hoje precisei de chorar porque até eu canso-me de remar constantemente contra a maré.

Um conselho, não desistam dos vossos sonhos, chorar é bom, a dor esvai-se em cada lágrima e renovamo-nos para mais um dia.

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Simples, sonhadora, trabalhadora, feliz, prática, cética, agnóstica, livre, pensadora, escritora, politicamente incorrecta.

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