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Nem todos começamos do zero

Nem todos começamos do zero e é aí que reside a grande diferença entre nós, não tem de ser, mas a maioria das vezes é.

Eu estou a viver com o Bruno á 4 anos praticamente, e posso-vos dizer que eu não comecei a minha vida do zero quando comecei a viver sozinha, não, a minha vida começou quando comecei a viver com o Bruno e começamos a construir o nosso lar aos poucos e com muita paciência. Mas antes disso imaginem o que é ter apenas dinheiro para pagar as contas? Eu sei bem o que é ser solteira num país que não aceita que as pessoas possam ser felizes assim, não é agora o meu caso, mas fui muito feliz enquanto estive sozinha, não tenho a necessidade de colocar seja quem for na minha vida para poder sentir-me completa. O Bruno foi a agradável surpresa, não estava á espera mas não há um único dia em que não agradeça por ele ter aparecido na minha vida.

Quando começámos a viver juntos tínhamos pouca coisa, tanto como metemos as tralhas no carrito pequeno e coube tudo sem grande cerimónia. Pegámos nas nossas tralhas e fomos para a Serra da Estrela, o Bruno foi aprendendo o que é uma vida fora da proteção dos pais e eu fui aprendendo o que é uma vida em casal.

Existem momentos que ao longo da nossa jornada incomodaram-me particularmente, quando as pessoas perceberam que não vivíamos no luxo e no conforto e que nos esforçávamos para ter uma vida melhor ás vezes até nos olhavam com desdém e deixavam de aparecer, “pessoas” que refiro no plural mas cujo número é na realidade bastante singular, claro que agora estando nós no Algarve a história é outra, caiu-nos uma chuva de críticas quando perceberam que tínhamos uma vida mais nómada porque como todos os jovens de hoje em dia (andamos a lutar e a procurar pela sorte) mas os interesses vieram exatamente dos mesmos lugares, as vontades súbitas, as saudades nossas (claro que sim) foram obviamente uma forma de apanhar uns raios de sol do algarve e trabalhar para o bronze, como se a conduta das pessoas não valesse mais do que isso, umas horas debaixo do sol do algarve.

Tenho dito ao Bruno ao longo destes anos que se déssemos um salto ao passado as saudades súbitas com certeza desapareceriam á mesma velocidade que apareceram, as pessoas são mesmo assim, só algumas, têm a necessidade de criticar, de ficar por cima, como se começar do zero fosse algum motivo para vergonha. Estou a ter esta conversa convosco porque á uns dias surgiu-me uma imagem no facebook de uma sala com apenas uma televisão e um colchão de encher, por cima da fotografia havia uma frase que dizia: “ás vezes a independência e a paz começam assim”, olhei para aquela imagem e lembrei-me de tudo o que passámos ao longo de todos estes anos, sorri feliz porque olho em volta e já conseguimos tanto, falta muito é facto, mas isso nunca é motivo de vergonha, ou nunca deveria ser. Identifiquei o Bruno nessa imagem e disse-lhe isso mesmo, que o mais comum dos mortais começa do zero, com pouco ou nada, e que quem nos julgar por isso, por querermos paz, liberdade, independência e assim dar o salto que muda as nossas vidas, tem que reflectir bem sobre o seu papel nas nossas vidas, porque amigos e família são aqueles que nos aceitam numa cabana ou numa mansão da mesma forma, e que em qualquer circunstância que for, sentem realmente saudades nossas e não das circunstâncias em que vivemos.

Algumas pessoas de facto nasceram privilegiadas, com acesso a uma vida boa, confortável, e no entanto tenho pena delas, porque se por um lado não entendem o que é uma dificuldade, por mais que o digam de facto não entendem, também não entendem que mesmo só com aquele colchão e aquela televisão, somos felizes quando estamos com a pessoa certa, respiramos fundo e arregaçamos as mangas, chegamos mais longe, muito provavelmente e damos mais valor ás conquistas do que aqueles que julgam que “conquistaram” alguma coisa quando na verdade só o tiveram porque caiu literalmente do céu. Essas pessoas não nos podem tirar nem a mim nem ao Bruno as memórias tão felizes que temos dos momentos em que começámos a construir as nossas vidas juntos, há muitas vantagens em pintar em uma tela vazia e não há nada que tenha mais valor do que uma casa feliz.

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