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Pessoas de bem com a vida

Ontem o Bruno fez-me uma surpresa, um pouco para redimir-se também da vez em que não fomos ver o Carlão na passagem de ano por causa dos pais dele, fiquei super chateada nessa altura porque sempre concordamos que a passagem de ano era um momento só nosso. Não pensei era que um simples concerto, e “simples” alto lá porque o Carlão é daqueles cantores que até a fazer o treino no ginásio eu oiço, pudesse fazer com que me sentisse tão bem e trazer-me algum consolo em saber que eu não sou a única, e sobre isto explico-vos mais á frente.

Assim de uma forma meio desastrada, notei o Bruno um pouco triste e perguntei-lhe milhentas vezes se ele estava bem ao que ele respondeu-me sempre que sim, mesmo assim, ele conseguiu deixar-me muito feliz, tentei disfarçar mas fiquei com aquela lagrimazinha no canto do olho, devo ser a única pessoa que fica com vontade de chorar ao ver o Carlão a cantar, mas eu sei precisamente o que foi que me deixou assim, foi ver o sucesso espelhado em alguém com quem eu tanto me identifico, e assim pensei que talvez um dia pudesse ser finalmente eu, embora, esta feliz fase da minha vida seja para mim um tremendo sucesso, eu quero mais, quero muito mais. Quanto á tristeza do Bruno ele está a tentar mudar e eu entendo isso, ás vezes em tom de quem vai dar-lhe na cabeça digo-lhe que ele tem imenso potencial, mas o Bruno ainda vai levar um tempo a acreditar nisso, cá estou eu para lutar contra a maré mais uma vez.

O Carlão começou logo por cantar uma das minhas músicas favoritas ” Entre o céu e a Terra” uma das tais músicas que oiço para treinar, antes de cantar deu uma pequena entrevista e resumindo para aquilo que me deu um tremendo regozijo ouvir ele disse que usa a escrita para se exprimir e extravasar e que não tem nada de mal fazê-lo, que ele tinha um lado mais zangado com o mundo e um outro mais descontraído como muitos de nós. Respirei fundo e lembrei-me do… Vamos chamá-lo “Leandro” só para não cair tudo em cima de mim, o Leandro era um dos casais mais próximos de mim e do Bruno, nunca fiz questão por viver com o Bruno agora e sermos um casal em fazer só amigos casais, mas sei que há maior hipótese de isso acontecer agora, o Leandro era um amigo do Bruno de á muitos anos, á uns anos juntou-se com a “Paula” e foi viver para França, o Bruno tem um coração gigante e por isso muitas vezes o Leandro foi mais rude com ele e o Bruno não respondia, quando eu e o Bruno nos aproximámos comecei a perceber que ele tinha alguns amigos assim, alguns bons amigos de verdade, como o Miguel que lhe deu um abraço gigante e ficou com os olhos banhados em lágrimas na última vez que o viu, nitidamente uma pessoa boa e educada, mas uns quantos outros usavam o Bruno para saco de pancada nos dias maus, dias esses que todos temos, claro que o Bruno não fazia o inverso e apesar de ele não dar grande importância, não acredito que isso fosse muito positivo para a autoestima dele. Uma vez até houve um que se sentiu á vontade para falar mal do Bruno á minha frente, foi uma das vezes em que senti que realmente o amava porque nem imaginam o quanto fervilhei e o quanto controlei-me para não dar-lhe uma bofetada logo ali.

É isto que acontece frequentemente a pessoas boas, há sempre um Xico esperto que acha que pode tirar vantagem disso, mas hoje o tema não é esse, é sobre o Leandro, e, apesar dos “maus dias” do Leandro, e das chamadas á razão do Bruno para que ele controlasse mais o seu feitio, eu tinha tanto o Leandro em conta que houve uma vez que ponderei que o Leandro e a Paula fossem nossas testemunhas de casamento no civil, nunca lhes chegámos a dizer porque o Leandro começou a colocar os pés pelas mãos ultimamente, até eu dar por mim a chorar completamente desiludida pela milésima vez com a raça humana.

O ínicio:

Primeiro o Leandro enveredou na missão de nos convencer a ir para França sendo que seria sem dúvida um dos últimos destinos que eu e o Bruno escolheríamos, aprendi Francês mas detesto a língua, a cultura, o clima, e as condições de trabalho não são assim tão melhores, as pessoas têm é a hipótese de trabalhar mais horas por lá e talvez mais apoios, mas essa hipótese também eu tenho aqui, se tiver que trabalhar 50 horas por semana porque estou a juntar dinheiro para algo, voluntario-me e algum colega aproveita para descansar um pouco mais, não seria a primeira vez, além disso uma vez eu e o Bruno estivemos mesmo para emigrar e o destino que tínhamos decidido era a Áustria, informámo-nos com as pessoas mais experientes no assunto e de todos era o que reunia as melhores condições. Não fugindo ao assunto tivemos que fazer entender ao Leandro que não tínhamos que tomar as mesmas decisões que eles para sermos amigos.

O machismo:

Pouco depois o Leandro percebeu que eu não queria ser mãe, e nas minhas costas decidiu perguntar ao Bruno, completamente transtornado se ele iria aceitar isso. “Aceitar?”!!!! A sério? Fiquei tão revoltada com essa situação que tive que desabafar com amigas na mesma situação que eu, porque era tudo menos normal que um amigo nosso metesse o nariz nas escolhas que nós fizemos como casal. Era quase como se nós não pudéssemos tomar as nossas decisões e fazer as nossas escolhas, era quase como porque o Leandro não teve a coragem de dizer á Paula que não queria ir para França que nós também tivéssemos que estar destinados a ser infelizes juntos. Nunca falámos sobre esse assunto com eles mas foi sempre a impressão que tivemos, que o Leandro não estava muito feliz com a mudança para França, mas como não tínhamos nada que ver com isso e podíamos estar redondamente enganados, nao dissemos nada porque era um assunto deles.

Parte 3: As minhas fotografias com o Bruno?! A sério?!

Á uns tempos o Leandro comentou com o Bruno que nós não devíamos fazer tantas declarações de amor um ao outro e publicar tantas fotografias, porque isso iria despoletar a inveja e o mau olhado das pessoas, como nunca baseei as minhas atitudes nem alterei por conta daquilo que os outros poderiam dizer essa “sugestão” entrou-me por um ouvido e saiu-me pelo outro, mas achei no mínimo estranho a “preocupação” do Leandro, de repente lembrei-me de varrer as redes sociais dele e heis que ele tem muitas mais fotografias com a Paula do que eu e o Bruno temos nas redes sociais e questionei-me se haveria ali alguma ponta de inveja. Lembrei-me que quando fomos á feira Medieval da Santa Maria da Feira o Bruno ofereceu-me uma coroa de flores e a Paula veio logo em seguida pedir uma ao Leandro, a diferença é que eu não tive que pedir, e são aquelas pequenas coisas que nos deixam a pensar, aqueles pequenos pormenores que nos deixam intrigados e nos fazem perguntar se o mau olhado não virá precisamente de quem nos alerta para ele?

Último capítulo: A gota de água

Por fim, isto foi relativamente recente, por isso ainda só quero chorar quando penso nisto, o Leandro decidiu questionar a minha forma de ser ao Bruno, como se quem tivesse que gostar de mim fosse o Leandro e não o Bruno, disse-lhe que eu não podia estar a escrever tanto para que as pessoas lessem, que não podia escrever zangada, que não podia extravasar, que só dizia estupidez… Dito isto, vou vos contar um pouco da minha história:

Escrevo desde os meus 7? Acho que sim, desde os meus 7 anos, tinha pilhas de cadernos daqueles baratos de capa preta cheios de poesia, de escritas minhas, umas quantas outras que via e copiava, pilhas, todas escritas sem uma pagina por preencher, umas preenchidas com desenhos mas a grande maioria por escrita. Comecei a sentir a necessidade de escrever quando os problemas começaram com a minha família, o meu pai batia-me sempre por tudo e qualquer coisa, quem estava do lado de fora acreditava naquilo que os meus pais diziam, que eu era uma criança mimada e que por isso precisava de “apanhar”, a realidade é que o único brinquedo que tive quando era miúda foi uma bicicleta e as vezes que me lembro de chorar era porque faltava comida em casa. Havia um pedaço de madeira em cima dos armários da cozinha onde eu nunca podia chegar por mais que me esforçasse para deita-lo fora, e quando o meu pai chegava a ele era para mim que ele era destinado, se não fosse isso era o cinto com a fivela direcionados para mim, se nao fosse o cinto era qualquer coisa que estivesse á mão. O pior dia da minha vida foi quando decidiram deitar fora as minhas primeiras escritas, pilhas de cadernos todos escritos foram deitados fora, era esse o tamanho do amor dos meus pais por mim.

Parti dois dedos, queimei as costas, fiz uma cicatriz que aparece com o frio no lado esquerdo da minha anca e que com os anos foi atenuando, perdi dois anos de escola primária, passei por várias tentativas de suicídio, tantas que perdi a conta até que por fim tive idade para fugir dos meus pais e começar a minha vida do zero. A escrita fazia sentir-me incrivelmente bem, um dos homens que abusou de mim apagou o blog em titulo anonimo que tive durante quase 15 anos porque um dia deixei o computador ligado e esqueci-me completamente de fazer logout, a escrita deixava-me respirar, sempre consegui descrever muito bem como me sentia e isso dava-me paz e tranquilidade porque do outro lado do ecrã haviam sempre meia dúzia de pessoas que compreendiam a minha dor e pediam-me que eu apresentasse queixa á polícia. Nunca tive coragem de o fazer.

A única vez que tentei retaliar sobre o meu pai, chorei por horas, e nem se quer cheguei a encostar a minha mão no rosto dele, mas culpei-me só por ter a mão levantada e tentar fazê-lo. A vida é mesmo assim, estranha, durante uns anos larguei a escrita porque houve um “Leandro” na minha vida, um ex-namorado meu que infelizmente vim a descobrir que era um traficante de drogas e casado, e que me convenceu que era demasiado ignorante para escrever, passei dois anos sem escrever.

Desde a saída da casa dos meus pais até á uns anos atrás, foi uma luta gigante fugir das minhas origens e das realidades com que me habituei a viver, lidei com coisas demasiado pesadas e com demasiadas coisas para uma vida só muito provavelmente, vivi em mundos muito obscuros e é um milagre estar viva para contar a história. Fiz coisas de que me orgulho menos, chorei, cai e aprendi por tantas vezes, e hoje aqui estou eu, a construir a minha vida com 33 anos, a começar de novo porque o Bruno soube do meu passado e não me recriminou, e aceitou-me porque viu o bom que havia em mim e deu-me a hipótese de mudar e começar do zero com ele ao meu lado, tive uma sorte tremenda e desde o inicio que lhe disse que ele foi a única coisa boa que aconteceu na minha vida em tantos anos.

O Bruno é o meu namorado, a minha família, o meu amigo, o meu porto seguro e é por isso que faço tudo por ele, tudo o que for necessário, e é por isso que luto tanto para que ele também deixe os fantasmas do passado para trás e reconstrua a vida dele, já superámos tanto juntos, e com ele, voltei á escrita, não só voltei como criei este blog e pela primeira vez não tenho medo de não ser aceite. Foi de uma arrogância gigante o Leandro achar que tinha o direito a julgar-me pelo facto de ás vezes a minha escrita ser mais pesada, é a necessidade que tenho, de confrontar o mundo e defender as crianças que existem perdidas por ai a viver a vida que eu vivi quando também era uma, são precisas pessoas que questionem, que façam perguntas e que se revoltem contra uma sociedade que deixa os indefesos ainda mais á mercê, e escrevo por essa e mil e uma razões que só a mim me dizem respeito e que não cuja leitura não é imposta a ninguém. Mas calma, porque vem pior, porque vem o auge de uma amizade e da mentira gigante que foi essa amizade durante todos esses anos…

O Leandro decidiu dizer ao Bruno que eu não o fazia feliz, assim, a milhares de quilómetros de distancia com visitas ocasionais uma vez em cada dois anos, O Leandro decidiu que nos conhecia o suficiente para concluir isso mesmo, que eu não devia estar com o Bruno que lhe fazia mal… Sabem como é que o Bruno contou-me isto? Um dia depois de ter chegado do trabalho perguntou-me:

. O que achas do Leandro e da Paula?

Eu sorri e disse que achava que eles eram bons amigos, que queria visitá-los e que dariam boas testemunhas para o nosso casamento. Dito isto imaginem receber a notícia de que essas duas pessoas que eu até tinha em boa conta e que recebi em minha casa afinal não me queriam ver assim tão bem, e que até tinham sugerido, que a pessoa mais importante da minha vida não devia fazer parte dela.

Controlei-me, desvaneceu-se o meu sorriso, coloquei as armas preparadas e disse que era bom saber com quem podíamos contar, no dia seguinte quando o Bruno foi trabalhar aproveitei a ocasião para chorar, chorar muito, as lágrimas corriam pelo meu rosto de forma compulsiva enquanto perguntáva-me porque é que as pessoas tinham tanta maldade dentro de si mesmas, senti que o Mundo queria tirar o Bruno da minha vida porque passámos por tantas coisas juntos, tantas, e no final, somos tão felizes, á chegada do trabalho perguntei-lhe se ele era feliz comigo e ele disse-me que sim sem hesitar e perguntou o que se passava comigo, eu disse que estava triste, desiludida, e cansada da maldade.

Ontem ao ouvir o Carlão quando ele falou sobre a escrita senti que mesmo sem me conhecer, haviam pessoas como ele pelo mundo a fora que percebem a importância que a escrita tem nas suas vidas, e que por isso fazem-me sentir um pouco menos sozinha. Respirei fundo e segui em frente como sempre faço, mas de coração cheio. O Bruno já me conhece tão bem que no momento em que o Carlão disse isso eu só lhe disse: vês, é sobre isto que falo, e ele acenou e abraçou-me. Gostava que o “Leandro” estivesse no concerto e queria ver se ele diria exatamente o mesmo que disse sobre mim sobre o Carlão também, se usaria o mesmo tom arrogante, convicto de que a escrita tem que ser algo politicamente correto e não algo criativo e terapêutico, e como tudo o que é criativo, livre de regras e padrões.

Todos temos uma forma de exteriorizar o que nos vai na alma e a escrita é tão bela, tão singular, tão culta, ninguém se magoa, aprendemos umas coisas, treinamos a nossa forma de nos comunicar-mos e transmitimos mensagens, a nossa alma fica mais leve, mais feliz e respeitamos quem somos quando escrevemos porque de repente há aquela necessidade urgente de escrever e exorcizar os nossos demónios, pegamos no portátil e tudo flui, talvez algumas pessoas não o façam e talvez por isso usam-nos como um escudo humano para ricochetear cada fragilidade e cada pedra que venha na direção delas, talvez seja vergonhoso na sociedade atual mostrarmos as nossas fragilidades pela escrita ou de outra forma qualquer, mas isso é que nos torna fortes, não termos medo de o fazer e não usarmos escudos humanos para os problemas mal resolvidos que temos em nós, não é justo, não é decente, ninguém tem a culpa dos nossos problemas. A escrita é uma forma de arte, assim como ser um bom ser humano o é nos dias de hoje.

Desculpem mas o texto de hoje não vai com correção ortográfica.

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