Sexualidade
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Daqui a uns anos mudas de ideias

Acho que esta foi a frase mais recorrente da minha vida e de cada vez que a oiço torna-se mais obsoleta.

Se no início eu dava-me ao trabalho de dizer que isso não ia acontecer, hoje em dia eu digo: “mas eu já tenho 33 anos!”. Fico estupefacta como é crescente o egoísmo das pessoas e o foco na nossa própria vida.

Egoísmo? Claro. Existe uma certa pressão para seguirmos os mesmos caminhos que as outras mulheres, só é um tanto egoísta que as pessoas ignorem o facto de não querermos e de assim estar a dar azo à pequena hipótese de sermos mães com filhos indesejados, frustradas, infelizes e com depressões pós parto que podem durar toda uma vida.

Oiço esta frase desde que tenho uns 10 anos, mas nessa altura as pessoas só diziam isso, sem grandes comentários, sem grandes motivos para espanto, já que tinha tantos anos pela frente, ignorando completamente o facto de que estavam a desrespeitar a minha infância colocando temas na minha cabeça que deveriam só fazer parte da reflexão de um adulto. Obviamente que uma criança de 10 anos não sabe o que quer para a própria vida, por isso é que fico admirada na forma como as mulheres são pressionadas desde cedo, soa quase como um incesto, como uma violação à nossa intimidade sexual e ao nosso desenvolvimento, com 10 anos eu nem se quer sabia como é que uma mulher engravidava e já era obrigada a pensar sobre filhos.

Se calhar foi por causa disso que fiquei “Maria rapaz”, enquanto as minhas amigas brincavam com bonecas e nenucos, eu jogava à bola, andava de bicicleta e de vez em quando até me metia em sarilhos com os outros miúdos, uma vida típica de rapaz diziam as donas de casa sem ocupações que as retirassem do mal dizer. Passei a minha infância com os joelhos esfolados, e as roupas e sapatilhas cheias de terra, com os rapazes ninguém tinha essas conversas, até disso nos privam a nós mulheres, de uma infância, de sermos meninas.

Só tive uma melhor amiga, a Susana, eu e ela brincávamos a coisas de que as outras meninas não brincavam, nós achávamos aborrecido, não tinha nada de mal ser menina e brincar com nenucos, mas comecei a repugnar isso desde cedo muito graças às conversas sobre maternidade, eu e a Susana tínhamos uma relação engraçada quase de irmãs, a avó dela tornou-se a avó que eu nunca tive, uma senhora tão meiga, tão doce mas com a autoridade que lhe é devida quando se é avó e mãe e também pai, chegávamos para almoçar todas enlameadas, raramente não tínhamos histórias para contar, não havia televisão nem na minha casa nem na casa da Susana, não precisávamos, nem precisávamos de grandes brinquedos, as miúdas do bairro recebiam máquinas de lavar roupa em tamanho míni e de plástico e míni cozinhas com omeletas de plástico, nós andávamos a escavar o chão à procura de tesouros no parque lá da zona e uma vez chegámos mesmo a encontrar um fio de ouro, convencidas de que estava lá a nossa espera contámos a toda a gente, alheias à maldade das pessoas e rapidamente apareceram mil e um donos esquecidos.

Mas por falar nos meus 10 anos a maioria das crianças que conheço hoje com a mesma idade falam que querem filhos, claro que são meninas porque os meninos ainda nem pensam nisso com essa idade, não são obrigados a isso. Como disse uma criança de 10 anos sabe muito pouco, mas aquelas meninas já sabem que querem ser mães, e acham que alguém lhes falou de todo o processo? Não, a lavagem cerebral está feita, provavelmente nunca irão se questionar sobre o assunto, e depois mais tarde, de já terem engolido as conversas das novelas, dos romances e dos livros ainda vão ouvir uma noticia sobre o incentivo à natalidade, pouco ou nada vão namorar e cedo engravidam de homens que são pais ausentes e donos de casa inexistentes, para um homem ser pai é um extra, para uma mulher é um segundo emprego.

Eu não mudei de ideias, nem tão pouco sabia com dez anos se queria ou não ser mãe, essa reflexão foi guardada para mais tarde, e como temos o raciocínio de que tanto nos gabamos, como a vida de uma mulher não é um documentário da BBC vida selvagem, nós não somos meramente fábricas de crianças, a nossa função na sociedade vai muito para além de procriar, mas aconteceu comigo o que deveria ter acontecido com outras mulheres, a reflexão em idade já madura :”quero ou não quero ter filhos?”.

Aos 33 anos ainda oiço: “daqui a uns tempos mudas de ideias”, e continua a ser egoísta porque quem me conhece já sabe que tenho uma vida bastante incerta, incerta porque quero, porque gosto de ter essa liberdade, de estar no Algarve e poder ir para Lisboa, de mudar a minha vida consoante o que for melhor para mim, e nessa vida não cabe uma criança, e é assim que pergunto a essas pessoas se vão assumir a responsabilidade por uma criança que não é delas caso um dia eu ceda à pressão e me transforme numa pessoa, como qualquer outra que toma uma decisão que vai contra os seus desejos, infeliz e passiva. Pergunto-me se as pessoas gostarão tanto assim de crianças quando tantas passam uma vida inteira num centro de adopção, porque foram colocadas ao mundo por alguém que não pensou bem. Pergunto-me se as pessoas gostarão tanto assim de crianças quando em vez de se preocuparem com as que cá estão e com um futuro incerto, preocupam-se em colocar mais no mundo e tornar as problemáticas em volta dos direitos das crianças ainda maiores, ainda mais difíceis de resolver.

Talvez eu goste mais de crianças do que se possa pensar, porque claro, já fui uma e porque depois, as crianças são o que os adultos desaprenderam a ser, genuínas, sem maldade. Por isso é tão importante respeitar a infância de cada criança, porque a maternidade já nos é impingida ao longo da nossa vida, mas ao menos que a sociedade faça isso só enquanto somos mulheres já formadas, nós não precisamos de uma lobotomia, precisamos de respeito e liberdade de escolha.

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