Sexualidade
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Nós merecemos a verdade

Esta manhã por entre as tarefas da casa, à procura de um tema interessante sobre o qual falar e a tentar fugir de temas polémicos, inevitavelmente fui parar a um vídeo do YouTube de uma muito talentosa influencer sobre a qual já li imensas coisas, até já comprei umas revistas, ainda que não saiba muito sobre ela comunica-se muito bem, dom que eu invejo, pois expresso-me muito melhor na escrita do que a falar em frente a uma câmara.

Aliás, foram dois vídeos aos quais assisti, um primeiro sobre o último trimestre da gravidez, que estava a ser segundo a influencer o mais difícil – Confissões do Último Trimestre de Gravidez / A Maria Vaidosa – e que me cativou pelo realismo, pela honestidade, e por isso passei para o seguinte, estava pronta para elogiá-la e comentar com o meu namorado que finalmente tinha encontrado alguém que falava abertamente sobre o assunto, fiquei um pouco desiludida com o vídeo seguinte – STORY TIME – GRAVIDEZ PARTO E PÓS PARTO / Mafalda Sampaio – este vídeo foi gravado após o parto e foi uma espécie de compilação de alguns momentos da gravidez, parto e pós parto, como já devem ter percebido eu não quero ser mãe respeitando no entanto imenso quem o deseja, embora muitas vezes eu não obtenha esse mesmo nível de respeito e consideração, mas hoje não venho falar dos motivos que me levam a não querer ser mãe e sim de um assunto que percebi que não agrada a muitas mães, a gravidez romantizada.

Reparem nisto, a Mafalda Sampaio teve que induzir o parto pois já passava do tempo e a bebé não nascia, foi para o hospital dos Lusíadas, para quem não sabe um hospital privado com excelentes condições e que por isso carece de algum desembolsar dos clientes, nem todos nós temos essa capacidade financeira, só isso já implica um tratamento em muito diferente de uma pessoa comum que ganhe um ordenado mínimo e que queira ter filhos e que só possa ter o seu filho numa maternidade que não implique muitos custos, implica médicos diferentes, instalações diferentes, atenção e cuidados ao paciente diferentes, enfim, implica todo um rol de situações que podem fazer a diferença na hora das mães relatarem o grau de dificuldade do seu parto. Mafalda, fico muito feliz que tenhas tido as melhores condições, de verdade, mas nem todos o podemos, e é depois desse momento em que afinal a Mafalda faz o recurso à epidural porque as contracções estavam a tornar-se dolorosas demais para suportar que tudo começa a cair ladeira a baixo e eu começo a ficar deveras desiludida com o relato. Por inúmeras razões nem todas as mães poderão beneficiar de uma epidural, mas, para além disso, alheia ao facto de que é uma sortuda, a Mafalda diz que não vale a pena falar do lado negro da maternidade pois tudo isso passa, faz ainda referência às pessoas que se queixam que esse lado negro não é referido e diz que vale tudo a pena e que foi por isso que reforçou mais o lado positivo de toda a questão.

Inúmeras coisas podem correr mal num parto, eu conheço pessoas que me são muito queridas e cheguei às lágrimas muitas vezes por não as ter podido ajudar. Podem questionar-se: como é que alguém que não é mãe sabe tanto? Nunca quis ser mãe mas a sociedade pressiona-nos de tal maneira que houve uma altura da minha vida, em que ainda não tinha a maturidade para entender que nunca devo tentar alienar quem sou só para agradar a alguém e comprar o seu afecto, coloquei em causa os meus desejos e perguntei-me se seria capaz de abdicar da falta de vontade de ser mãe, fiz o meu melhor por ver o lado positivo de toda a questão mas quanto mais sabia menos o desejava, julgava que amava o homem que tinha ao meu lado mas na verdade não passava de uma mulher insegura com sede de ter a aprovação de alguém de que eu gostava. No final dessa saga percebi que na verdade não queria ser mãe e prometi a mim mesma que nunca mais sacrificaria a minha felicidade em detrimento de vontades inexplicadas de alguém que me dizia amar. No meio do processo conheci pessoas que tiveram gravidezes complicadas e pessoas que tiveram gravidezes normais, com muita a dor à mistura claramente mas isso já é suposto e todos sabemos.

Exemplos?

A minha mãe quando teve o meu irmão mais novo que ficou com resquícios de material que deveria ter sido totalmente expelido durante a gravidez e passou por momentos muito difíceis graças a isso, o meu irmão que nasceu quase morto e com sequelas para o resto da vida devido à negligência médica de “profissionais” que do início ao fim da gestação ignoraram e saltaram etapas que teriam feito toda a diferença.

Uma amiga minha com quem trabalhei alguns meses e que ficou com problemas de saúde e controlo de peso desde que tinha sido mãe, não acreditei nas fotografias do antes, ninguém acreditaria, uma mulher lindíssima que tinha engravidado de um pai cuja filha provavelmente nunca conhecerá.

Os relatos de bullying e violência obstétrica quando uma amiga minha entrou em trabalho de parto a primeira vez, as típicas parteiras agressivas que de cada vez que a Isabel chorava diziam “na hora de o fazer não choraste assim”, a Isabel não foi acompanhada pelo marido porque ainda existem homens que dizem “eu não quero ver nada para não atrapalhar a nossa vida sexual” e isso deixou-a mais à mercê de tudo isso, disso e do corte que lhe fizeram entre o ânus e a vagina sem perguntar, isso e os pontos que lhe deram para além do corte depois do bebé sair para que o mesmo marido que não a acompanhou não só não sentisse a diferença como ainda sentisse uma passagem mais estreita ao voltar a ter relações com a Isabel.

Bem este é um assunto amplo e não quero tornar o texto demasiado extenso e maçador mas isto é só um pequeno exemplo das coisas que li, o relato destas experiências aqui tem um objectivo, o de explicar às pessoas que precisamos sim de relatos de parto abertos e sem rodeios, não queremos mais casos de partos traumatizantes ou experiências menos felizes, claro que não queremos que isso aconteça, mas também não percebemos porque nos ocultam todos os momentos menos felizes e que quando queremos saber a verdade sobre a questão tenhamos que recorrer à internet ou pedir encarecidamente que esses momentos não nos sejam ocultados. Esses relatos reais que peço são a empatia feminina que espero que exista de mulher para mulher e que seria tão bonito se acontecesse de facto, é triste que ainda que eu quisesse ser mãe eu não iria ser preparada por todo o círculo à minha volta, eu iria sim levar a gravidez até ao fim e só no derradeiro momento saberia a verdade, o engraçado é que às vezes esse preparo emocional significa tudo, significa mesmo a vida ou a morte em casos mais extremos.

Hoje em dia a “campanha” da maternidade que circula pelo mundo inteiro sempre da mesma forma, como se se tratasse de marketing ou publicidade de um medicamento cheio de efeitos secundários mas apenas referidos nas letras mais difíceis de ler, está de tal forma enraizada na nossa sociedade e na maioria das culturas que parcamente se pode falar sobre o assunto, arriscamo-nos a que as nossas palavras sejam acolhidas com profundo desagrado e repugna, frequentemente o nosso título de mulheres é colocado em causa associado a essas questões que não podem supostamente assolar os pensamentos de uma mulher comum. Por isso e para contrariar essa tendência é que é tão importante falar, por isso é que discordo da Mafalda Sampaio quando ela diz que tudo passa, cabe a nós mulheres decidir se queremos passar por isso ou não por mais que seja algo temporário, aliás, tampouco podemos alegar que é um sofrimento temporário quando tudo na vida é temporário quando no entanto são pequenas escolhas que ditam o rumo da nossa vida. Tomamos as decisões mais importantes das nossas vidas em momentos, no entanto, elas não deixam de ser importantes por isso. Os nossos estudos, a nossa carreira profissional, o homem que escolhemos, o país em que vivemos, tudo são escolhas, tudo isso é temporário, a própria vida em si é temporária mas tudo isso são questões que vão influenciar a nossa felicidade.

Todas as mães obviamente têm o direito a decidir se querem ou não falar dos maus momentos por que passaram durante todo o processo de gravidez, parto e pós parto, claro, é uma escolha só delas e quem seria eu para julgar, no entanto, faz diferença dizermos a verdade, vivemos em sociedade e tudo o que dizemos tem uma consequência por mais pequena que seja, no caso da maternidade todos os dias mulheres como eu que desde tenra idade sempre disseram que não queriam ser mães vêm toda uma vida questionada pelos outros, já tenho 33 anos e adivinhem, isso não deixou de acontecer. Eu continuo a ser pressionada para ter filhos, eu continuo a ser vista como uma alienígena, a diferença é que agora estou de tal forma habituada a isso que já não me importo mas nem todas as mulheres reagem da mesma forma, e é aí que falamos das mulheres que se arrependem de ter filhos e que vivem todo o processo da maternidade, que dura até ao final da vida e não só na sala de partos, deprimidas e reprimidas por uma sociedade que ainda não nos permite falar e que nos permite parcamente escolher se queremos ser mães ou não, porque claramente se não o formos teremos que acostumar-nos a uma vida repleta de críticas e pressão social, se algum dia cedermos a essa pressão ainda assim não poderemos contar que nos arrependemos, e é aí que vem a responsabilidade da gravidez romantizada e toda a bola de neve que daí adveio.

Espero que um dia as mães que existem na nossa sociedade possam entender que não é por contarem as coisas tal como são que o título de mães lhes será retirado, ninguém tem esse direito, são mães, ponto final, simples. Falar de um parto a preto e branco, ás claras, sem rodeios, sem floreados, sem cortes, deveria ser um movimento feminista, um grito de revolta dirigido a uma sociedade que quer vender um produto sem o folheto de contraindicações, nós temos o direito a saber, nós merecemos esse respeito e essa consideração. Relatos verdadeiros teriam salvo vidas, relacionamentos, crianças e mães que muito antes de o serem são mulheres, não tem nada de errado nisso, em queremos ser “só mulheres”, é urgente elucidar as mulheres que já têm um título que vale por si só que não se agiganta ou apequena por sermos ou não mães, ninguém á nossa volta tem esse poder e nós temos o direito a decidir.

P.S- Artigo que encontrei enquanto procurava imagens para enriquecer este post – 11 Reasons Why People Need To Stop Romanticizing Childbirth

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