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O respeito é para todos

Estava a jantar, coloquei os pratos na banca e como sentia-me meio aborrecida e queria estar perto de alguém que não quisesse fazer aquelas conversas de ocasião que em nada têm a ver comigo sentei-me no sofá e fiquei a ver se o programa que tinham escolhido na televisão era um pouco mais interessante. Ao meu lado estavam pessoas de idade, mas eu nunca me incomodei por ter ali ao meu lado pessoas com outras vivências, sempre tive imenso respeito, aliás, geralmente os mais idosos costumam gostar de mim porque não os trato com condescendência como todas as outras pessoas, com aquelas vozes agudas e irritantes, os tons quase cantantes e os sorrisos maternais forçados, para mim são pessoas adultas normais e com mais histórico que nós.

De repente um dos senhores, parte da minha família mas não muito chegada decidiu começar a inquirir-me sobre como a minha vida de casal corria com o meu namorado, assim sem mais nem menos, eu não estava propriamente na melhor fase da minha vida, nessa altura ainda tinha umas lições para aprender, estava desempregada, o meu namorado também, mas o que esse senhor não sabia é que eu tinha muitos planos para o meu futuro e que algumas dessas coisas já se estavam a solidificar, nunca fui pessoa de cruzar os braços, só não queria contar a ninguém antes de ter algo sólido para apresentar. Por essas razões acabadas de referir, eu respondi com um encolher de ombros, “infelizmente estamos desempregados, mas estamos bem obrigada”. Prontamente ele decidiu responder, sem pensar na resposta, sem receios, sem hesitar e até com um ligeiro aumento no tom: “não estuda, não trabalha, não conduz, não quer filhos, não nada!” Só porque esse senhor que obviamente não vou dizer quem era mas cujos 92 anos já deveriam ter dado alguma sabedoria tinha a idade que tinha, só por isso, resolvi remeter-me ao silêncio e distanciar-me, mas desta vez tinha sido um distanciar de vez pois não era a primeira vez que sem dar acesso ou azo para isso via a minha vida a ser alvo de uma crónica aberta de alguém que se julgava o juiz da minha vida só pelo facto de ser um idoso. Estava demasiado farta de lidar com o preconceito, quando também ele sem perceber também estaria exposto a um certo nível de preconceito por todos os outros, deixando-o á mercê do abandono, sozinho, como um vegetal, no entanto eu, que só quis tentar ser diferente, não mais nem menos mas diferente, estava ali, e o que é que eu tinha recebido por isso? Uma pedra lançada bem na minha direcção. Não iria permitir que alguém que não tinha pisado o mesmo caminho que eu julgasse todas as minhas escolhas até então, escolhas que já tinha como certas para mim e sobre as quais merecia respeito.

Não conduzo de facto porque tive um acidente muito grave à uns anos atrás sobre o qual nem me atrevo a pronunciar, pois traz-me memórias desagradáveis, não tenho filhos porque é um direito meu e porque eu e o Bruno como casal assim o decidimos, e por fim na altura estava desempregada porque o meu trabalho era sazonal, não sabia aquele “senhor” no entanto que eu já tinha comparecido a uma entrevista de emprego a qual tinha quase 100% de certeza tinha-me garantido uma vaga que me dava mais condições de vida do que o emprego que tinha anteriormente, que estava a aprender uma língua nova e ainda a investir na minha formação, e que mesmo que estivesse desempregada pago as minhas contas desde muito cedo, já tive dois e três empregos e nunca sobrevivi com as opiniões dos outros mas sim com trabalho árduo. Isto só para explicar que quando não conhecemos alguém é preciso ter-se muito cuidado antes de fazer julgamentos de valor, uma lição que alguém com quase 1 século de vida já deveria ter aprendido.

Saltemos para outro episódio, neste eu tinha apenas 12 anos, lembro-me como se fosse hoje, estava a afixar um cartaz do detergente skip na parede do meu quarto (não o encontrei na internet, já lá vão 20 anos), na minha ingenuidade julguei que aquilo fosse resolver os problemas que eu tinha em casa e também sentia orgulho porque aquele cartaz confirmava o que eu estava sempre a dizer aos meus pais “as crianças também têm direitos”, mal acabei de o colar e o meu pai perguntou-me furioso o que era aquilo, ao ler, começou-se a rir e a repetir “as crianças têm direitos, direitos? As crianças têm que respeitar os pais!”, mais tarde esse cartaz que tantas vezes reli acabou por desaparecer “misteriosamente”. Reli-o a chorar muitas vezes, em dias que de repente porque tinha chegado feliz da escola e só me apetecia dançar o meu pai sacava do cinto, enrolava-o no punho muitas vezes com o lado da fivela de fora e batia-me enquanto eu perguntava-me o que teria feito de errado, então ia para o meu quarto depois de tudo ter acabado, a soluçar, a sentir a pulsação e o quente da vermelhidão nas minhas pernas, nos meus braços, ás vezes no rosto ou no pescoço, com as lágrimas a cair rapidamente e lia cada direito, lembro-me que eram 12 e lembro-me vagamente de alguns deles: “a criança tem o direito a brincar”, “a criança tem o direito a uma família”, “a criança tem o direito à educação”, eram coisas óbvias mas eu precisava de afirmar os meus direitos diariamente na esperança de um dia conseguir defendê-los, mas lia-os baixinho, não fossem os meus pais ouvir e “chatear-se” outra vez.

Sinto que toda a minha vida estes episódios foram um teste ao quanto eu quero ser livre e consequentemente feliz, sim, porque para mim não existe uma coisa sem a outra, a liberdade foi algo que aprendi a respeitar, talvez porque já senti o que é não a ter tenha percebido o que é tê-la, e de repente poder tomar decisões, poder falar, poder tudo o que não interferisse negativamente com a vida dos outros. A maior parte das pessoas não tem a noção do privilégio que é a liberdade.

Falo destes dois episódios tão diferentes só para tentar fazer com que as pessoas percebam que todos merecemos respeito, todos temos um conjunto de direitos e deveres, não sou condescendente nem tão pouco vou admirar alguém ou consentir que essa pessoa me falte ao respeito só porque tem um par de anos a mais do que eu, todos vamos envelhecer, crianças, corruptos, trabalhadores, filhos, pais, criminosos e pessoas boas, todos envelhecemos e isso não significa que por um passo de mágica envelhecer transforma todas essas pessoas menos boas em pessoas boas, francamente o coração das pessoas raramente muda, o que muda é uma coisa aqui ou ali, mas o carácter da pessoa? Muito raramente parece-me.

Hoje, por isso, se tivesse passado por esse episódio novamente, onde decidi fazer companhia a um senhor de 92 anos que era mais ou menos como se fosse família teria lidado com isso de forma diferente, teria respondido à letra, sei que cairia meio mundo em cima de mim mas existe uma grande diferença entre senilidade e maldade e este senhor estava completamente ciente das suas faculdades mentais quando decidiu atacar a minha vida pessoal.

Hoje sei que ainda existem crianças como eu era, que não têm a completa noção dos direitos que elas têm porque há pessoas que se fazem valer de um par de anos a mais para nos agredirem verbal ou fisicamente a seu bel entender, cabe aos pais deixar que uma criança o seja e dar-lhes todas as condições para que ela seja saudável e feliz, se não o podem fazer mais vale evitar. Infelizmente ainda vivemos num país onde as pessoas têm alguma preguiça de pensar, e por isso todos os idosos são bons, até aqueles homens que foram agressores de mulheres durante toda uma vida, até aí nós seremos sempre os filhos desnaturados, os que abandonam, os ingratos, assim como somos supostamente crianças ingratas quando os nossos pais nos repreendem e as pessoas leigas e sem saber porquê ainda aconselham os pais a usar punições físicas no caso de as verbais não funcionarem, e então essas pessoas, sem saber que causaram danos, vão fazer com que aquela criança não se sinta segura dentro da sua própria casa porque a qualquer momento os pais vão se agigantar e tornar nas personagens do pior pesadelo de qualquer criança, porque os pais foram encorajados a continuar, no dia seguinte é 1 de Junho, dia da criança, está calor e os teus colegas estão a jogar à bola, mas tu usas uma sweat para esconder as marcas sem perceber porque é que os teus pais tendo tanto a certeza que fizeram a coisa certa escondem as marcas que isso deixa em ti. É assim que nos começamos a isolar e na ausência de gente para conviver começamos a pensar, a ler, é esta a minha história.

Todos merecemos respeito, todos temos direitos mas a existência de direitos pressupõe a existência de deveres também perante os outros.

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