Sexualidade
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Podemos decidir?

Não sei francamente se estamos a progredir ou parados no tempo, se nos havemos de dizer uma sociedade moderna ou estamos só a fazer um pequeno esforço para o parecer, porque francamente, directamente de quem vive na pele de uma minoria estou num ponto de saturação onde a minha resposta a alguns temas já é apenas: eu quero, o corpo é meu e eu tenho esse direito.

Já pulei a parte de querer argumentar ou explicar-me, faço-o quando me apetece, a maioria das vezes limito-me a dizer que não quero e que eu é que mando no meu corpo. Simples, claro e directo.

Mas a questão é, isto é novidade?!

Porque nos temos que defender a maioria do tempo sobre questões que nos envolvem apenas a nós, a cada uma de nós mulheres, de uma forma individual? Já não deveria ser óbvio que nós temos esse direito e ponto e que direitos não deveriam ser discutidos num país onde os deveres ficam muito aquém?

Sim, isto é sobre maternidade, porque chegamos ao ponto de criar grupos onde podemos falar sobre isto em paz sem que ninguém nos venha ofender, coisa que ao contrário nunca acontece claro. Porque nós respeitamos quem opta por ter filhos mas não recebemos de volta o mesmo respeito. Porque de repente toda uma prole de mulheres que deveriam estar plenas por terem realizado o seu sonho pessoal, unem-se contra nós e quase que sequestram o nosso útero na tentativa de o impregnar em ideias de maternidade sem que nós tenhamos dado licença para isso. Serão assim tão felizes se o precisam de fazer?

O engraçado é que isto é connosco, é uma batalha solitária, por aqui, quando o Bruno diz que não quer filhos ninguém comenta muito o assunto, e assim vejo acontecer com maridos de amigas minhas, mas se sou eu a dizê-lo de repente, o facto de eu não me sentir muito feliz com a ideia de um ser humano a ser gerado num processo longo, doloroso e demorado que dura uma vida toda, dentro do meu corpo, já me transforma num monstro, num ser abstracto.

Na verdade não somos uma minoria de mulheres que não querem engravidar, somos uma minoria de mulheres que têm a coragem de o verbalizar num mundo repleto de preconceitos, e sim, há muitas que o fazem praticamente obrigadas por todo um círculo social que as diz amar e querer proteger, família, amigos, trabalho até… Num círculo vicioso onde depois a mulher deixa de existir e vem uma doença que se chama depressão e para quem não a teve deixem-me explicar: a depressão é um legado para toda a vida, com altos e baixos.

Por isto e mais, as pessoas não têm esse direito, o de nos cobrar a maternidade como se não tivéssemos escolha, um filho é feito a dois mas nós mulheres carregamos um útero sozinhas, e seja qual for o motivo que nos tenha feito decidir não ser mães, merece ser respeitado como qualquer outra opção. Isso não significa que não gostemos de crianças ou que não amemos a pessoa que temos ao nosso lado, isso significa que somos adultas para tomar as nossas próprias decisões. Isso não significa que não respeitemos as mulheres que querem ser mães também, respeitamos, ficamos felizes por elas, ajudamos até mas não recebemos o mesmo em troca e perguntamo-nos porquê,

Vistas bem as coisas, até à pouco tempo era permitido usar a violência contra a mulher, tanto verbal como física, até à pouco tempo não tínhamos o direito a votar, a trabalhar, ainda ganhamos mal (os homens também mas sempre mais), não podíamos vestir calças ou pelo contrário usar uma mini-saia, ou se a usássemos então aí não nos podíamos defender de uma violação por lei, perderíamos toda a credibilidade. Na índia todos os dias mulheres são violadas sem se poderem defender judicialmente, estamos a falar de violações na rua, à luz do dia, e apedrejamentos por adultério no Irão (quando muitas vezes é o homem quem o comete), de mulheres prometidas ainda menores privadas de estudar e de uma infância e adolescência em algumas culturas (algumas delas existentes em Portugal), de mutilação feminina em África porque o prazer é um crime, mas só para nós, para os homens é outra história. Vistas bem as coisas ainda não temos total liberdade de sermos quem somos e durante toda a nossa vida temos que construir um certo calo para saber lidar com a maldade que se agiganta na forma de preconceito.

É precisa alguma força para se ser diferente. Mas temos que deixar de sacrificar a nossa felicidade só para que as crenças sociais fiquem de acordo connosco e assim deixem-nos em paz, as cobranças não param e vêm de todas as formas, se temos um filho é porque temos que ter mais um, se queremos parar de ter filhos somos nós sujeitas a mais uma intervenção no nosso corpo, a laqueação já reparam que é muito raro ser o homem a fazer a vasectomia?

Mas o engraçado, o mais engraçado no meio disto tudo e só para terminar por hoje, porque este tema nunca termina, é que no círculo social o preconceito vem não dos homens, mas na grande maioria de outras mulheres, que nos tentam “punir” de alguma forma por termos seguido outro caminho e eu tenho ouvido dizer que mulheres fortes suportam-se umas ás outras e nunca o contrário. Fica a reflexão.

P.S-

Em anexo têm aqui um artigo publicado em Janeiro deste ano no “The Guardian” sobre o percurso de uma mulher que não queira ser mãe nos dias que correm.

‘Why is it such a scandalous thing?’: the women who have to fight for their right to be child-free”

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