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Pessoas políticamente correctas

Hoje em dia já não existe o depressivo, o que chora publicamente e desabafa quando precisa. Essa pessoa escondeu-se dentro da sua própria depressão e não se revela nunca a não ser que a situação esteja por um fio e quase sem retorno. Socialmente o que existe é a diva das redes sociais, a que está sempre feliz, sempre contente, a que usufruiu das melhores condições de vida porque lhe saiu o jackpot logo à nascença e que por isso teve tudo do melhor, a melhor educação, as melhores roupas, as melhores oportunidades, a melhor aparência. É uma pessoa que não pode ter um cabelo desalinhado ou ouvir uma crítica ainda que construtiva, aí é o caos, aí é porque o mundo se desalinhou e alguém está a lançar-lhe mau-olhado, sendo que na verdade pela primeira vez a diva deparou-se com um ser humano que não se deixa cegar pela vaidade ou enganar pelas aparências.Não gosto de pessoas politicamente correctas, aquelas que fazem tudo como dita a sociedade e julgam todos os outros que não o fazem, pessoas que rotulam quem sai fora da linha a que estão habituadas a seguir. É como um veneno que só surte efeito se o bebermos.De repente, se algum dia fizermos parte da vida dessas pessoas, a nossa vida torna-se numa maratona onde cada um luta entre si por um pódio, quando na verdade, na realidade, existe um lugar para todos os que se esforçarem. Nunca vimos um atleta olhar para o lado enquanto corre e ultrapassa obstáculos, isso pode resultar numa queda e num atraso irrecuperável, e é isso que acontece a estas pessoas que não percebem a dádiva que têm por não passar por grandes adversidades na vida e ter um trajecto tranquilo sem grandes sobressaltos, caem numa cegueira por conta de uma vaidade que se ganha quando se tem consciência que nem todos tiveram a mesma sorte, e ficam contentes com isso, pior, tomam vantagem disso. O mais engraçado é que nunca pensamos que estas pessoas intocáveis do alto do seu nariz nunca competem com os iguais, mas sim com quem claramente teve que lutar para conseguir tudo o que as mesmas conseguiram sem ter que fazer um pouco que fosse. Assim é fácil competir, é como entrar nessa mesma maratona sabendo que tomamos uma substância que nos vai fazer correr mais depressa que todos os restantes. Fair-play na vida é algo a que estas pessoas não estão habituadas.No entanto, existe uma espécie de frustração por não o terem conseguido de forma honesta, por isso é que os cobardes calam-se e afirmam sempre que tudo o que conseguiram foi com luta e sacrifício mesmo que no fundo saibam que não foi assim, quando na verdade, algumas pessoas nem sabem nem suspeitam o que é fazer um sacrifício.Conheço poucos, poucos que tiveram sorte e souberam aproveitar, poucos que conseguiram manter a humildade e os pés no chão quando perceberam que estavam com uma certa vantagem, são as pessoas raras e iluminadas que existem entre pobres e ricos, brancos e pretos, homens e mulheres que percebem que a única competição é a que nos leva a superar os nossos próprios limites e não os limites dos outros. Fazer um inventário do que temos para uma introjecção é algo positivo, inventariar frequentemente algo que temos para que os outros possam ver e na esperança que isso faça com que se sintam mal é cruel, imaturo e revelador de uma insegurança gigante. Essas inseguranças são notadas nas mais pequenas coisas, em pessoas que têm tanto e tão pouco ao mesmo tempo, nos olhares de soslaio, nas felicidades por tristezas alheias e no dia-a-dia que na realidade é monótono, triste e ditado por regras implacáveis e que não tornam nenhum ser humano feliz. Mas essa é a escolha que fazemos, “vendermo-nos” por um preço que nos vai custar a independência, a vida, a paz e a liberdade em troca de conforto financeiro ou não vendermos a alma ao diabo e preferirmo-nos sacrificar um pouco, perder noites de sono, passar dias cansados e de arrasto mas sermos felizes e estarmos em paz com quem somos e com as nossas escolhas. Sim, estaremos sujeitos a críticas cruéis, a olhares de desdém e a nossa auto-estima será testada vezes sem conta com a prova feliz de que estamos a construir uma, porque sim o Amor-próprio constrói-se, o respeito por nós mesmos aprende-se. Podemos usar óculos de massa, ter uns quilos a mais, celulite nos lugares de fora do biquíni, tatuagens, piercings, empregos não convencionais e vestes mais excêntricas mas estamos a ser nós próprios e é isso que torna um ser humano interessante, a diferença. Claro que sermos diferentes vai nos trazer alguns dissabores, algumas frustrações, mas são pequenos sentimentos temporários e que com a energia certa nos trazem mais auto-estima e mais força para seguirmos o caminho que estamos a traçar. As divas das redes sociais são homens e mulheres, snobes, vestidos com uma capa que na realidade é uma protecção para a insegurança tremenda que faz parte dos seus dias, são pessoas que não gostam da vida que têm, que não riem a beber uma cerveja, que não soltam um palavrão uma vez por outra, que não se engasgam ou atrapalham a meio de um discurso, nem se entusiasmam muito com coisa nenhuma, estão proibidas de serem pessoas de pele e osso e dão lugar a uma postura militar que mais tarde ou mais cedo vai atirá-las para a mais profunda das depressões, são aquelas pessoas que estão tristes sem saber ao certo porquê e que não percebem as gargalhadas estridentes de pessoas humildes e que se riem tanto sem ter tanta coisa. Afinal rir alto pode ser feio, usar certas roupas pode não ser aprovado, ter certos amigos é impossível, a profissão está destinada desde que estavam no útero da mãe pois é assim que são os politicamente correctos, tem uma vida extremamente planeada sem nunca permitir que algo atrapalhe essa linha a seguir. São pessoas que aos quarentas ou cinquentas ou com sorte mais cedo divorciam-se, deixam os empregos e mudam de hobbies porque percebem que passaram toda uma vida a ignorar sinais.

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