Diário
Deixe um Comentário

Escolhas

Um dia eu decidi ser alguém que não era eu, só porque sim, só porque era mais fácil, só porque assim eu acreditei que os problemas seriam menores mas foi quando eles, cá no fundo, se agigantaram e foram corroendo quem eu realmente era. É fácil agradar, é só colocar um sorriso de capa de revista 24 horas sobre 24 horas ainda que no fundo de nós queiramos chorar, é só dizer que sim e acenar ainda que queiramos dizer que não e causar o caos, é só obedecer, obedecer e obedecer até que por fim quem um dia fomos se desvaneça em meio a tanta hipocrisia.

Pior do que nós julgarmos que é correcto camuflar a nossa personalidade para vivermos em paz é que os outros aceitem isso para que as suas próprias vidas sejam mais fáceis, um jogo entre quem manda e quem obedece, entre quem tem dinheiro e quem não tem, e assim, vestem-se todos com uma capa de hipocrisia, uns vilões, outros vítimas de um jogo onde não pediram para entrar. É assim a sociedade, um lugar de patrões e empregados, pessoas mais e menos valorizadas como seres humanos. Uns quantos de nós um dia fartam-se, e na possibilidade de perdermos a nossa identidade e nos sentirmos amordaçados, decidimos viver, ainda que isso envolva um trabalho muito mais árduo.

De repente ficamos zangados e já não o escondemos, zangados porque vivemos toda uma vida que foi alcatroada por mentiras que engolimos e que fomos tornando nossas, zangados porque percebemos que afinal o tempo todo éramos capazes só que ninguém nos disse, porque a sociedade não quer construir pessoas capazes e independentes, a sociedade quer cobaias que estejam dispostas a trabalhar de sol a sol sem questionar valores, regras, injustiças ou o que seja. Só que em meio a tudo isso somos seres humanos e é disso que a sociedade se esquece, que uma pessoa feliz e motivada é muito mais útil para o que quer seja, e que de qualquer forma as pessoas não foram feitas para ser usadas, sim para dar um contributo social válido onde seja respeitada e reconhecida.

Foi assim que eu mudei de ideias e passei a habituar-me a quem eu realmente era, com todos os defeitos e qualidades pela primeira vez aceites por mim e sem culpas. Foi assim que eu coloquei um basta a uma vida vivida em função dos outros e não de mim, parei de aceitar que todos se sentissem no direito de me dizer o que lhes ia na alma ainda que isso só me dissesse respeito a mim, parei de fazer fretes em lugares onde não queria estar com pessoas com quem não queria estar, parei de engolir em seco e cerrar o punho sempre que as pessoas se sentiam no direito de me dar opiniões que eu não pedi, parei de sorrir para parecer simpática, de manter laços que tinham um nó cego e vínculos só para parecer bem. Parei de me importar no geral, porque grande parte das coisas às quais damos importância na verdade não têm uma grande função na nossa vida a não ser atrapalhar-nos.

Fechei umas portas e abri outras, difícil sim, mas tudo por uma boa causa.

This entry was posted in: Diário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s